Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 07/12/2020

Conhecida como “cultura do cancelamento”, o ato de “cancelar” o individuo nada mais é que mostrar, em rede social e na mídia, o que a pessoa falou ou fez e foi, ou interpretado de forma arbitrária, ou realmente deve ser observado e criticado. Em um primeiro momento, a proposta por trás das ações de vir a público tais situações questionáveis, era dar voz a minorias e procurar por justiça social. Porém, apesar da oportunidade, não há espaço para debate, o que gera vitimismo, maiores polarizações nos debates, fomenta o discurso de ódio e o linchamento social, assim, o “cancelamento” tem resultados infrutíferos.

Apesar de ter surgido com um intuito benigno, o “cancelamento social”, nos dias atuais, geraram outras consequências. As pessoas têm acesso rápido de atos arbitrários e controversos e acabam martirizando àquele individuo sem abrir espaço para o debate sobre o assunto. Classificar um individuo, de forma vitalícia, por um ato realizado em um momento de sua vida é dizer que o ser humano não é capaz de mudança, assim como acreditavam os filósofos gregos imobilistas. O que pode gerar mártires dependendo da situação.

Além disso, a falta de debate e a acusações de pessoas por seus atos, fomenta os discursos de ódio e extremismos. A polarização do discurso leva a dois posicionamentos contrários e se não houver discussões e esclarecimentos, não haverá evolução acerca do tema que o “cancelamento” quer trazer para a conversa.

Ademais, é importante lembrar que, muitas vezes, o ato de cancelar um individuo que realizou uma situação arbitrária pode, ao invés de tirá-lo dos holofotes das mídias, aumentar seu alcance como influenciador social. Um “influencer” que não era falado por algum tempo, pode conseguir maior engajamento nas redes sociais através de discursos arbitrários, em um pré-lançamento de algum produto, isso pode gerar efeitos positivos para a marca. Um exemplo é a autora britânica J. K. Rowling, em 2020, em que fez vários comentários trasnfóbicos, e teve seu livro “O Ickabog” em primeiro lugar nas vendas pela classificação da revista Isto É e The New York Times. Ou seja, o cancelamento gerou visibilidade. Outro exemplo é o da família real inglesa, que apesar de realizar atos arbitrários nos seu dia a dia, com a nova série do stream Netflix, a trouxe para destaque dos tabloides.

Assim, torna-se claro que a sociedade precisa se posicionar de duas formas, estar disposta a se abrir para fomentar debates, sem permitir que o cancelamento gere mártires e ignorar ações arbitrárias, falando do tema, sem, no entanto, expor os autores para que esses não ganhem visibilidades com suas ações e sejam ignorados, ao invés de serem postos em evidências pelos meios de comunicação.