Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 11/12/2020

Um comandante de uma colônia penal idealiza um sistema de justiça em que a penitência do condenado consiste em prender o mesmo a uma cama cheia de engrenagens calibradas, e através de um rastelo e várias agulhas, sua sentença será literalmente desenhada em seu corpo. Essa é parte da narrativa do conto “Na Colônia Penal” publicada em 1919 por Franz Kafka, que apesar de tão antigo, reflete muito sobre nossa sociedade punitivista que populariza movimentos como a “cultura do cancelamento”.

A “cultura do cancelamento”, que deslegitimiza ou exclui alguém de algum debate político por ter cometido uma ação que é considerada errada, não é lá tão longe do sistema de justiça idealizado pelo comandante quando dá espaço para comportamentos como humilhações online e danos psicológicos ao “cancelado”, que em alguns casos tem até mesmo sua vida profissional prejudicada. Isso quando o cancelamento realmente passa de indignações temporárias, pois as consequências são seletivas. Homens brancos e ricos por exemplo dificilmente têm consequências significativas, é possível observar isso no caso do cineasta Woody Allen, que casou com a filha adotiva 35 anos mais nova de sua ex esposa e continua com sua carreira normalmente.

Há quem use o argumento de que a cultura do cancelamento incentiva o debate e conscientiza sobre questões relevantes, mas existem milhares de outros meios para levantar uma discussão que não seja necessário destruir alguém de uma maneira até desproporcional e sem resultados eficazes. No final, o cancelado não aprende realmente com seu erro e se assemelha ao papel do condenado que não fala a mesma língua que o comandante e sequer tem a chance de se defender já que, de acordo com o sistema, seria mais uma oportunidade de mentir.

Até o momento, a cultura do cancelamento não tem um prazo de validade, e a busca por debates que de fato são construtivos e tem cuidados com a saúde mental são a melhor saída.