Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 09/12/2020

A população com o poder de encomendar a morte de personalidades mal vistas socialmente. Essa foi a trama trazida em um dos episódios do seriado ‘‘Black Mirror’’, distribuído pela companhia Netflix, no qual enquetes virtuais eram usadas para assassinar pessoas. Desse modo, percebe-se que, fora da ficção, permanece uma sensação de ódio similar, propagada pela cultura do cancelamento. Nesse sentido, deve-se debater a supressão da liberdade e a postura civil condenatória como males da questão.

Vale destacar, incialmente, a perda do direito à liberdade de vida como tópico crítico da problemática. Sob esse viés, a elaboração da Constituição Cidadã, há 32 anos, definiu o dever coletivo de assegurar a autonomia e a responsabilidade pessoal como bens inalienáveis. Entretanto, percebe-se que a realidade prática destoa da teoria magna, uma vez que indivíduos ‘‘cancelados’’ pelas mídias sociais perdem o controle sobre as suas próprias ações e sobre as respectivas consequências. Portanto, tal panorama nega direitos basilares e, por isso, deve ser alterado.

Além disso, a postura de julgamento torna-se um notável entrave na presente conjuntura. Nessa perspectiva, o filósofo Foucault, em sua obra ‘‘Microfísica do Poder’’, defende a ideia de que as relações de opressão são multilaterais e generalizadas. Assim sendo, grupos da comunidade, ao criticarem vorazmente quaisquer outros indivíduos no espaço digital, exercem prerrogativas de controle e suprimem qualquer possibilidade de redenção. Logo, é imprescindível combater essa prática no Brasil.

Diante disso, cabe ao Ministério das Comunicações realizar campanhas midiáticas e informativas, por meio de parceria com órgãos privados de entretenimento. Por sua vez, essa colaboração deve garantir a circulação de, no mínimo, 30 horas nobres mensais de publicidades, em canais de rádio e televisão, que alertem os malefícios sociais do linchamento virtual e condenem o ato. Com isso, objetiva-se elucidar os brasileiros e mitigar a cultura do cancelamento. Dessa maneira, dramas análogos ao de ‘‘Black Mirror’’ hão de se limitar meramente ao universo ficcional.