Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 09/12/2020

Com o advento do movimento internacional ‘‘Me Too’’ em meados de 2017, criado para expor nomes de famosos envolvidos em crimes sexuais e buscar justiça para casos que, até então, permaneciam silenciados, surge a ‘‘cultura do cancelamento’’. Contudo, houve uma subversão do objetivo original do fenômeno, uma vez que, ao invés de promover mudanças efetivas na sociedade, o cancelamento, seja pela intolerância, seja pela falta de empatia, passou a motivar o discurso de ódio na internet. Nesse sentido, convém analisar os principais fatores, efeitos e possíveis medidas relacionadas a esse viés social.

Em primeira análise, cabe ressaltar o conceito de “Modernidade Líquida’’ do sociólogo Zygmunt Bauman, no qual ele afirma que as relações interpessoais contemporâneas são frágeis e efêmeras. Essa premissa pode ser evidenciada na sociedade, tendo em vista a ocorrência de constantes linchamentos virtuais, fomentados com o intuito de prejudicar e ferir a pessoa que, normalmente, pratica um ato equivocado ou possui opinião contrária da massa. Isso ocorre, pois, movidos pela necessidade de engajamento e curtidas nas redes sociais, os indivíduos condenam através de comentários ofensivos e ameaças, sem ao menos dar a oportunidade de retratação ao ‘‘cancelado’’. Logo, a cultura do cancelamento torna-se, por vezes, uma manifestação de injustiça e intolerância.

Outrossim, vale destacar os efeitos desencadeados por esse movimento. De acordo com a Constituição Federal, promulgada em 1988, todo cidadão tem direito à vida com integridade e dignidade. No entanto, essa garantia é deturpada, visto que as perseguições e agressões morais provocadas pelo cancelamento pode gerar danos psicológicos e de socialização à vítima dos ataques. Dessa forma, por sofrer inúmeros julgamentos, a pessoa desenvolve doenças como a depressão e a síndrome do pânico que, consequentemente, provocam o isolamento social do meio em que vive.

Destarte, considerando os aspectos mencionados, fica evidente a necessidade de medidas para coibir esse entrave. Para tanto, cabe ao Governo, em parceria com empresas digitais, desenvolver políticas educativas que incentivem os usuários a não propagarem o discurso de ódio, por meio da implementação de preceitos e anúncios nas redes sociais que preguem a liberdade de expressão, a tolerância e o respeito. Tal ação teria a finalidade de tornar o ambiente virtual mais empático e menos punitivo. Só então, será factível minimizar os impactos causados pela cultura do cancelamento e assim, dar espaço na internet para questões que precisam ser discutidas.