Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 09/12/2020
Segundo René Descartes, filósofo francês, o espetáculo do mundo nos oferece frequentemente cenas de violência e intolerância, nascidas de preconceitos que querem se impor pela força, na ausência de questionamentos e, sobretudo, do exercício da razão. Da mesma forma, essa violência e intolerância assemelham-se ao cenário nupérrimo das redes sociais, em que pessoas se utilizam do direito de cancelamento para expressar sua intolerância à certas atitudes julgadas, por elas, erradas. Sendo assim, faz-se necessário entender o significado da cultura do cancelamento para então compreender seu maior efeito que é a propagação da incomplacência.
Em primeiro plano, de acordo com o dicionário, cancelar significa tornar algo nulo, sem efeito, sem valor. Assim, nas redes sociais, o conceito ganhou novas definições e tem sido aplicado a empresas, políticos, celebridades e todos aqueles que, de alguma forma, ‘‘vacilam’’ e apresentam comportamentos que o público considera inadequado. Certamente, conhecer o significado dessa cultura fará com que pessoas saiam do senso comum e comecem a problematizar tal ação de cancelar, analisando seus efeitos. Uma vez que, influenciadores digitais, marcas e demais envolvidos perdem seguidores, patrocinadores e deixam de vender, logo, o prejuízo não é apenas social, mas também financeiro.
Outrossim, é indubitável que o maior efeito dessa cultura seja a propagação da incomplacência. Visto que, qualquer atitude considerada contrária ao pensamento de um determinado grupo de pessoas, é merecedor do cancelamento. Assim, um exemplo disso, é o que aconteceu com atriz Alessandra Negrini, que vestiu de índia no carnaval e foi acusada de apropriação cultural, então foi cancelada. Por certo, cancelar pode ser associado com a intolerância enraizada no ser humano, que no lugar de um feddback menos agressivo preferem a humilhação generalizada.
Em síntese, evidencia-se que o cancelamento deva seguir alguns critérios para acontecer. Em razão disso, as redes sociais precisam criar uma política mais elaborada sobre o que pode ser cancelado ou não, assim, as atitudes anuladas serão, de fato, por uma causa lógica, e não por uma divergência de ideias. Ademais, cabe a cada indivíduo ter mais empatia com o seu próximo, através de duas simples perguntas: eu também já errei? Queria ser tratado dessa forma? Assim, o espetáculo do mundo irá oferecer muito mais que a violência e a intolerância, oferecerá empatia e solidariedade.