Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 10/12/2020
Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor José Saramago sinaliza, metaforicamente, uma crítica ao individualismo através de um processo epidemiológico de perda de visão que atinge toda uma comunidade. No Brasil, por exemplo, essa incapacidade coletiva de enxergar é vista na indiferença do Estado e de parte da população frente à cultura do cancelamento. Diante do exposto, cabe analisar os aspectos políticos e sociais que circundam essa questão no país.
Antes de tudo, pontua-se que o Poder Público tem se mostrado negligente ao permitir a cultura do cancelamento. Como prova disso, vê-se a omissão das instituições governamentais perante o processo de fiscalização das leis, posto que não se tem inspecionado a efetivação do ordenamento jurídico que prevê a liberdade de manifestação do pensamento aos cidadãos, favorecendo que usuários de redes sociais, por exemplo, divulguem as opiniões de outros integrantes dessas sem garantir-lhes a possibilidade de defesa, bem como a violação do direito à integridade moral deles. Desse modo, certifica-se que o bem-estar de toda a coletividade não tem sido assegurado, demonstrando uma ruptura dos princípios presentes na Constituição Federal de 1988.
Ademais, observa-se que uma parcela da sociedade tem aceitado a cultura do cancelamento, o que denota uma banalização do mal. Confirma-se isso pela apatia de alguns indivíduos diante da ausência de assistência estatal, uma vez que falta oferecer auxilio jurídico as pessoas que sofreram violação moral nas mídias sociais, o que pode influenciar que essas se precipitem ao denunciar, publicamente, atitudes consideradas ofensivas. Constata-se, dessa forma, que a naturalização desse fato corrobora os estudos de Hannah Arendt, pois, segundo a filósofa, o enfraquecimento da capacidade humana de discernir o certo do errado é resultado de um processo de massificação social.
Evidencia-se, portanto, que a cultura do cancelamento deve ser combatida. Para isso, é necessário que o Poder Judiciário assegure o cumprimento da legislação vigente, o que pode ser feito por meio da ampliação do quadro de funcionários da Polícia Federal que averigue os casos de denúncias de violação moral na internet, a fim de garantir o direito de defesa aos indivíduos que tiverem sua imagem comprometida devido a divulgação de uma opinião pessoal. Ainda, é fundamental que organizações não governamentais, mediante atuação de veículos mediáticos, promovam campanhas que estimulem a mobilização coletiva para que se exija do Estado auxílio jurídico, visando a assegurar a possibilidade de acusação, dentro dos trâmites legais, aos cidadãos que tiverem sua integridade moral violada. Sendo assim, seria possível restringir a negligência social à obra de José Saramago.