Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 10/12/2020
Na série “Gossip Girl”, do serviço de streaming da Netflix, os boatos e as “fofocas” disseminadas pela “garota do blog” movimentam e difamam a elite da sociedade de Nova York. Nessa perspectiva, o cenário brasileiro é uma distopia da trama norte-americana, já que a cultura do cancelamento está cada vez mais presente na sociedade contemporânea. Dessarte, tal cultura, no contexto nacional, possui causas históricas e sociais.
Em relação às raízes históricas, observa-se que o ser humano aprecia e prática o linchamento desde a idade média. Nesse sentido, consoante o filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, as execuções em praça pública, aclamadas pela população, migraram para as redes sociais, chamadas de “cancelamentos”. Isso pode ser visto no documentário “Miss America” , que retrata como as redes sociais foram utilizadas para linchar a cantora Taylor Swift. Dessa maneira, os “cancelamentos” são uma forma de segregar e excluir aqueles que são considerados culpados ou indignos, baseados nos valores daquela comunidade ou grupo. Logo, é imprescindível que o corpo social abandone tais práticas milenares, como cita o filósofo Luiz Felipe Pondé.
Quanto às raízes sociais, vê-se que as redes sociais se tornaram verdadeiros tribunais. Nesse viés, de acordo com o escritor e filósofo Mário Sérgio Cortella, existe uma diferença entre compreender e aceitar. Dessa forma, o fato de compreender alguém ou alguma ação não significa que isso é aceito, mas significa que as pessoas possuem opiniões diferentes. Desse modo, cada usuário se torna um juiz no tribunal da internet, considerando seus valores morais acima dos outros, propagando, assim, um discurso de ódio que pode levar à depressão, à ansiedade e ao suicídio. Assim, é mister a necessidade de se controlar tais discursos de ódio, para que os indivíduos compreendam as diferenças, como descreve o escritor Mário Sérgio Cortella.
Diante dos fatos expostos, infere-se que, seja pelas causas históricas ou pelas sociais, a cultura do cancelamento é prejudicial para sociedade contemporânea. À vista disso, cabe ao Ministério da Educação, inserir, na BNCC, o estudo sobre discurso de ódio e linchamento virtual, por meio de palestras e estudos com profissionais qualificados, com a finalidade de formar indivíduos críticos e tolerantes. Em segundo lugar, é dever do Poder público, agindo em conjunto com a ANVISA, regular os comentários agressivos e ofensivos nas redes sociais, por meio de programas virtuais, a fim de que o discurso de ódio diminua nas redes e, com isso, os efeitos maléficos dessa cultura sejam amenizados. A partir dessas ações, espera-se que a série norte-americana não seja mais uma distopia da realidade brasileira.