Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 18/12/2020

‘‘Eu sei o que vão fazer, reinstalar o sistema’’, em sua música ‘‘Admirável Chip Novo’’, a cantora Pitty transmite comandos que a padronização generalizada dita. Nessa mesma perspectiva, nota-se uma hegemonia na sociedade brasileira, que segue um pré-estabelecimento de como deve ser e se portar um indivíduo. Como uma ferramenta, a cultura do cancelamento atua como regulador e punidor social, baseado em valores morais, trazendo consequências desproporcionais a quem não se encaixa.

Primeiramente, é importante informar que o ato de “cancelar” é relacionado diretamente com a punição, infere-se que quem o faz tem autoridade moral para violentar o outro que não siga a mesma “verdade absoluta”. Seguindo essa mesma linha, não há nenhuma intenção de diálogo, de fomentar troca de ideias e muito menos de cunho didático e informativo. Sob a perspectiva do filósofo francês Michel Foucault, o poder está em redes micro, através de saberes e discursos, o que leva a era moderna a disciplinarizar as pessoas para docilizar, com o objetivo de domesticar a subjetivação humana.

Em segunda análise, percebe-se que a cultura do cancelamento segue uma linha neoliberal, a qual cria uma falsa impressão de que um indivíduo, com ações isoladas, ainda que massivas, possa mudar estruturas sociais. Em virtude disso, tais ações são explícitas no caso da rede de supermercados Walmart, onde após um assassinato de um homem negro, a reação foi uma aclamação online pelo boicote da empresa, quando a verdadeira problemática era o racismo, trazendo, portanto, consequências distintas das desejadas.

Portanto, diante das consequências que a cultura do cancelamento coleciona, medidas são necessárias para alterar o cenário recorrente. Posto isto, cabe, principalmente ao Ministério da Educação, por meio de políticas públicas que possam reduzir as consequências do tema, evidenciá-las aos usuários das redes sociais, através de campanhas de conscientização, com auxílio de profissionais especializados no assunto, como psicólogos e professores; no intuito de atenuar a postura punitivista da população. Deseja-se, depois da implementação, um decréscimo nos números de ocorrências de silenciamentos na internet brasileira.