Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 04/01/2021

Zizek, filósofo e professor universitário esloveno, afirma que mais comunicação significa, em um primeiro momento, mais conflito. Dessa maneira, é possível inferir que com a recente ascenção das tecnologias na sociedade contemporânea, isto é, com os novos meios de comunicação, surgiram novas formas de conflito, e, entre elas está a cultura do cancelamento: um ataque à reputação que ameaça o emprego e os meios de subsistência atuais e futuros do “cancelado”. Decerto, tal postura antiética há de ser continuamente combatida, por razões de ordem moral e social.

Primeiro, convém analisar o quanto a cultura do cancelamento diverge do comportamento esperado de um indivíduo em sociedade. A fim de compreender essa preposição, vale citar Kant e aquilo chamado por ele de “imperativo categórico”: o pensador propõe que, se uma ação pode ser admitida como norma de conduta geral, ela é legítima moralmente; caso contrário, não. Traçando um paralelo entre tal ideia e o fenômeno dos ataques intencionais e repetitivos na internet, depreende-se que esses se dão em uma direção notadamente oposta à ideia do filóosofo, pois envolvem comportamentos reprováveis e inadmissíveis, como perseguições, difamações, insultos e ameaças. Aliás, muitos desses casos envolvem grupos vulneráveis, a exemplo de adolescentes e adultos jovens, caracterizando, assim, um modo de agir em completo desacordo com as normas de convivência social.

Depois, cabe ressaltar como a prática do cancelamento, do ponto de vista social, é condenável. Acerca disso, Joshua Greene professor de Harvard, assevera que as emoções, naturalmente, tornam os seres humanos relutantes em ferir os outros e permitir que sejam feridos, o que ele definiu como “decência mínima”. Todavia, aqueles que cometem o ato repudiável do cancelamento digital não aparentam ter uma decência mínima, uma vez que denigrem a imagem dos “cancelados”, como foi o caso da blogueira Gabriela Pugliesi que após postar cenas de uma festa, em meio a pandemia do coronavírus, uma multidão online passou a cobrar de seus patrocinadores que rescindissem os contratos de publicidade com ela, o que a causou um prejuízo superior a 2 milhões de reais. Logo, sempre haverá um prejuízo moral decorrente do “Tribunal da Internet”, especialmente, para as vítimas.

Portanto, é oportuno apontar soluções para a problemática. Assim, as redes sociais, como o “Instagram”, “Twitter” e “Facebok” devem realizar fiscalizações mais frequentes e severas dos conteúdos publicados, para garantir um ambiente virtual mais justo e aberto ao diálogo distante da cultura nociva do cancelamento. Isso pode ser feito por meio do atento reajuste das políticas de denúncia e de privacidade dessas redes, de forma a tornarná-las mais rigorosas. Dessa forma, espera-se que os indivíduos tenham acesso a espaços digitais harmônicos e livres de julgamentos injustos.