Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 07/01/2021

Durante o período da Idade Média, uma prática comum adotada pela igreja e por seus fiéis foi a perseguição aos hereges. Nesse cenário, condenava-se a queimar na fogueira ou a sofrer outras punições todos que se contrapunham a preceitos do catolicismo. Na sociedade contemporânea, o mesmo mecamismo de submissão de pessoas contrárias a ideologias dominantes, ainda que com sanções diferentes, tem sido adotado atualmente pela prática do cancelamento na sociedade brasileira.Tal fato se deve à polarização nociva de ideias, o que causa uma idealização destrutiva.

Cabe abordar, de antemão, a questão da intolerância vigente na contemporaneidade em relação ao convívio com pensamentos divergentes entre grupos específicos como motivo para a prática do cancelamento. Consoante a isso, o escritor Pepetela, no livro “Mayombe”, ao narrar de forma fictícia a história de um grupo de guerrilheiros africanos que lutam pela independência da Angola, expõe o tribalismo segregacionista existente entre soldados pertencentes a grupos étnicos diferentes. Paralelamente a isso, na sociedade brasileira atual, observa-se comportamento semelhante, evidenciado pela prática do afastamento de pessoas com ideais divergentes de um certo grupo majoritário, propiciando o cancelamento. Assim, é nítida a limitação da aceitação do contraditório.

Como consequência disso, verifica-se a criação de uma imagem social referente à vítima do processo de cancelamento que a submete a efeitos nocivos. Nesse viés, de acordo com o filósofo alemão Walter Benjamin, no livro “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”, o advento das mídias sociais e a possibilidade de veiculação de conteúdo, por meio do recorte e da seleção de cenas, favoreceu o desvio de foco do indivíduo do âmbito real para o das redes de disseminação de conteúdo. Sob essa ótica, constata-se, na atualidade, o uso de mecanismos tecnológicos para auxiliar a prática do cancelamento, o que fomenta o compartilhamento de informações relacionadas à reputação de alguém em uma sociedade cada vez mais conectada. Portanto, é notório o caráter abusivo dessa ação.

Desse modo, torna-se claro a existência de um processo perturbador da ordem social, representado pela cultura do cancelamento. Urge, dessa forma, que haja sinergia entre o Ministério da Educação e a mídia televisiva para a criação de um programa veiculado no horário nobre, com a participação de profissionais da área da comunicação e cientistas políticos, que promova debates acerca da necessidade de conviver e dialogar com o contraditório para promover a síntese de um pensamento mais completo e abrangente, ainda que continue existindo algum ponto de discordância. Essa estratégia terá a intenção de desmotivar a continuidade da prática do cancelamento e estimular o diálogo. Com isso, espera-se superar a mentalidade medieval da inquisição.