Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 07/01/2021

Em recente debate, a socóloga e influenciadora americana Nathalie Wynn lançou luz sobre a cultura do cancelamento argumentando sobre os perigos e injustiças relacionados com tal prática. Esta prática se caracteriza por cancelar apoio e lugar de fala de alguém devido a alguma atitude ou comentário que pode ser considerado reprovável. De fato, a cultura do cancelamento precisa ser debatida e ponderada para não se transformar em instrumento antidemocrático.

Em primeiro lugar, deve-se enfatizar a máxima do sociólogo francês Bourdieu, o qual defendia que os instrumentos para a democracia não podem ser usados para a manipulação. Embora as mídias sociais permitam a aceleração da comunicação, promovendo um ambiente de trocas de ideias democráticas, essas ideias não podem ser usadas para coibir, ou cancelar, o direito democrático de expressão incorrendo na contrariedade apontada por Bourdieu. Ainda mais, a cultura do cancelamento não leva em conta que o pensamento evolui com o tempo e não permite a retratação de ideias erradas quando as mesmas são reconhecidas como taís. Dessa forma, a cultura do cancelamento pode se transformar também em meio de manipulação, visto que tem como objetivo fazer uso do passado e do erro para anular direitos ou prejudicar pessoas.

Outro aspecto relevante da teoria do cancelamento diz respeito a própria evolução social humana. Cabe lembrar que durante a Idade Média, a visão vigente defendida pela sociedade e a igreja era geocêntrica. Em contraposição, Nicolau Copérnico foi o primeiro a propor uma teoria Heliocênctrica mudando a humanidade. Nesse período, o debate de ideias antagonicas, apesar de ter enfrentado forte resistência, permitiu a evolução do pensamento humano. Outrossim, a cultura do cancelamento  pode representar em alguns casos a mesma força resistiva que Copérnico experimentou. Ou seja, o uso irresponsável da cultura do cancelamento têm potencial de colocar a humanidade novamente em ambiente antidemocrático e fechado ao debate de ideias como na Idade Média.

Portanto, fica claro que o debate da cultura do cancelamento como proposto pela socióloga N. Wynn não poderia ser mais pertinente como agora. Ainda mais, fica evidente que esta cultura não pode ser banalizada. Logo, cabe a prórpria mídia criar campanhas de conscientização e instrução para não haver essa banalização e anulação democrática presente na cultura do cancelamento. Isso pode ser feito por meio das mídias sociais e do debate franco e aberto a respeito do tema. Além disso, o próprio sistema de ensino  nacional deve colocar em pauta a discussão através da motivação do debate entre os jovens conduzindo-os para a tolerância e respeito mútuo. Com efeito, apenas dessa forma honraremos a máxima de Bourdieu permitindo que os instrumentos democráticos tenham apenas este fim.