Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 08/01/2021

O episódio “Odiados pela nação”, presente na série norte-americana “BlackMirror”, encena as alarmantes dimensões da cultura de cancelamento nas mídias contemporâneas, ao passo que retrata duras críticas nas redes sociais tendo violentas proporções, como assassinatos e agressões. Analogamente, fora das telas, a recente moda de denúncias e difamações cibernéticas transformam os civis em falsos justiceiros, capazes de aplicar sentenças errôneas e mal analisadas. Nesse sentido, seja pela espetacularização do erro alheio ou pela amenização da capacidade de redimição de deslizes cometidos, o julgamento virtual compartilhado cunha-se prejudicial e, por isso, carece de cuidados.

Previamente, é relevante salientar o constrangimento provocado pela prática canceladora. De acordo com o filósofo Guy Debord, a geração atual caracteriza-se como a “sociedade do espetáculo”, visto que quaisquer comportamentos geram respostas instantâneas, dramáticas e globalizadas. Nesse viés, conforme um equívoco externo - nem sempre verossímil - é apontado virtualmente, não só um núcleo de socialização é atingido, mas também empresas e identidades desconhecidas. Dessa maneira, vereditos injustos podem ser aplicados, correndo riscos de gerar desempregos, degradação da auto-estima da vítima e dificuldades de redimições posteriores. Prova disso é o caso do jogador Neymar, que foi acusado de abuso sexual em 2019 sem uma investigação judicial prévia. Desse modo, fortalecer a presença da justiça legal é essencial para que a vexamização não seja instituída.

Ademais, as consequências do julgamento deturpam o valor do erro: A reflexão. Segundo o existencialista Hegel, as leis humanas são constituídas de teses, antiteses e sínteses, sendo uma contradição crucial para uma constatação efetiva. Sob essa ótica, à medida que um deslize é cometido, a auto-avaliação do próprio comportamento abre caminhos para a ressignificação das atitudes. Contudo, as críticas não-construtivas não despertam o pensamento da vítima, já que não há um dialogo entre as partes. Outrossim, a abrangência da internet possibilita que todo indivíduo seja julgado, até mesmo um “justiceiro”. Logo, elucidar à sociedade sobre a não-eficiência do cancelamento é mister.

Portanto, ações são indispensáveis para romper com a prática canceladora. Dessa forma, a criação de um filtro algoritmo nominal para que publicações cibernéticas apenas sejam retratadas com autorização prévia dos citados, por meio de parcerias entre a Organização das Nações Unidas e as principais redes de comunicação, é mister no intuito de que falásias não sejam divulgadas. Somado a isso, a exibição de propagandas televisivas que instruam os civis sobre a pouca efetividade do cancelamento, por intermédio das respectivas mídias e Ministérios da Justiça nacionais, é imperioso a fim de que os julgadores sejam amenizados. Assim, casos como os de BlackMirror não serão realidade.