Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 09/01/2021
“Uma das características da cultura, é tornar normal o que não é”. A afirmação atribuída ao historiador brasileiro Leandro Karnal, simboliza claramente a cultura de cancelamento, já que é justamente a normalidade com que a sociedade hodierna trata a questão que a enraíza e a aprofunda como entrave social. Nesse sentido, incita essa vicissitude não só a falta de uma legislação adequada, como também o silenciamento social.
É relevante abordar, primeiramente, que a ineficácia governamental em elaborar um artigo que legisle sobre o tema, constitui o âmago do revés. Para Aristóteles - filósofo grego - , as leis constituem um instrumento regulador das relações entre os cidadãos e da harmonia social. Nessa perspectiva, é verossímil entender que a prevalência da cultura de cancelamento decorre da ausência de uma legislação vigente por parte do Estado, que caracterize a prática como um ato que fere os direitos humanos ao denegrir a imagem de um indivíduo. Assim sendo, necessita ser erradicada através da penalização dos autores, inclusive quando ocorre na internet, que vem se consolidando como " uma terra sem lei", o que favorece essa conjuntura e impede a resolução do impasse. É, pois, inaceitável que não se reverberam leis que atuem sobre o tema, consoante a concepção aristotélica.
Paralelo a isso, outro fator preponderante é o silenciamento social frente a banalização do cancelamento. Em consonância a isso, a escritora brasileira Martha de Medeiros, discorre, em uma de suas obras, sobre a falta de debate social, afirmando que o indivíduo silencia aquilo que não quer que venha à tona. Desse modo, é notória a relação da afirmação da autora com a normalidade com que casos de cancelamento ocorrem, principalmente nos meios digitais, onde a facilidade em acusar e denegrir a imagem do outro torna a prática corriqueira. Em virtude disso, lamentavelmente a sociedade mantém a questão silenciada, pois seu debate trará consequências para grande parte da população.
Depreende-se, portanto, a necessidade de debater a respeito da cultura de cancelamento. Para isso, é imprescindível que o Estado em parceria com as redes sociais, através do Poder Legislativo, elabore uma lei que penalize atos que difamem e desrespeitem um cidadão, inclusive na internet onde grandes corporações como o Facebook, Instagram e Twitter esclarecerão aos seus usuários as consequências que o cancelamento virtual traz a quem prática, a fim de não permitir que tal fato seja corriqueiro. Assim, o revés não tornar-se-á cultural na sociedade contemporânea, tal como alegava Karnal.