Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 09/01/2021
O cancelamento emergiu com o objetivo de romper com uma estrutura de poder, na busca por justiça social de determinadas minorias em prol da defesa de suas pautas historicamente oprimidas, e forçar ações políticas de figuras públicas. Entretanto, houve uma subversão do seu sentido original, resultando em linchamentos virtuais que fragilizam a dignidade humana, além da perda de espaço para a realização do diálogo e conscientização social.
Em princípio, ressalta-se o ostracismo social ocasionado pela cultura do cancelamento. Reputações e carreiras são afetadas, como aconteceu com a blogueira Gabriela Pugliesi que, ao ignorar o contexto pandêmico da COVID-19, realizou uma festa durante a quarentena e por isso foi cancelada nas redes sociais, perdendo contratos e tendo prejuízos de até 2 milhões de reais, além de ter desativado a sua conta no Instagram.
Ademais, é válido elucidar que a sociedade está em constante evolução e recorrentes mudanças sociais e, consequentemente, a desconstrução de preconceitos faz-se imprescindível. Todavia, discursos de ódio incitados pela divergência de ideias, tornaram-se cada vez mais frequentes no vasto ambiente da internet. Segundo a parábola de Nietzsche, para se firmar como bom, o cordeiro sente necessidade, antes, de apontar o mau em outros diferentes dele. Sendo assim, o cancelamento, na maioria das vezes, torna-se uma medida paliativa de punição em relação a questões estruturalmente mais complexas e, dessa forma, o diálogo construtivo visando uma reeducação, torna-se mínimo.
Portanto, faz-se necessário que o Poder Público, em parceria com os órgãos de segurança nacionais, potencializem o rastreamento de discursos de ódio a fim de punir legalmente os criminosos, além de um trabalho conjunto com a mídia na propagação de campanhas televisivas de incentivo ao diálogo entre os indivíduos, e na ponderação de suas atitudes de cancelamento, visando a evolução da sociedade contemporânea.