Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 10/01/2021

As conturbadas eleições de 2018 no Brasil, marcadas por uma intensa polarização ideológica, evidenciaram a precariedade do debate público no país. Desntre as diversas causas dessa realidade, é substancial destacar a ascensão da cultura do cancelamento, que ocorre exponencialmente na nação, não só devido ao histórico legado de grafilidade democrática intrínseco à sociedade mas também em virtude da recente ampliação do acesso às redes sociais.

A princípio, é necessário atentar-se ao contexto histórico acerca da problemática supracitada. Nesse âmbito, Claude Lévi-Strauss constata que a interpretação do coletivo deve ocorrer a partir do entendimento de sua história. A partir dessa ótica, a construção do país em meio à revoltas emancipacionistas, golpes políticos e governos populistas representa uma perpetuação secular da escassez do diálogo demotrático, que persiste hodiernamente por meio de “bolhas” sociais que promovem a desvalorização da opinião exeterna, repudiando sua representatividade.

Em segunda análise, é indubitável que a mídia, especialmente em suas esferas virtuais, contribui para a continuação desse cenário. Conforme Pierre Bordieu, aquilo que foi criado para se tornar instrumento de democracia não deve ser convertido em mecanismo de opressão simbólica. Logo, elementos como a “patrulha do politicamente correto”, por exemplo, fomentam uma cultura intolerante nos veículos de comunicação, ao incentivar a completa repulsa aos usuários que não atendem a um padrão perfeccionista de comportamento. Dessa forma, todos que arriscaam expor-se ao mundo virtual tornam-se potenciais vítimias de tal expurgo.

É evidente, portanto, que tais entraves devem ser solucionados. Para isso, é preciso que o Ministério das Comunicações, em parceria com o Ministério da Educação, promova campanhas publicitárias em redes sociais e escolas de nível fundamental e médio, a fim de conscientizar a população sobre o tema por meio da divulgação de depoimentos de vítimas dessa cultura exclusora, que apresenta-se como uma afronta ao Estado Democrático de Direito garantido na Constituição Federal de 1988. Com isso, o Brasil se tornará um país mais tolerante e pacífico perante o convívio em sociedade, que deve ser encarado com humanidade e celebração, pois, conforme Hannah Arendt, a pluralidade é a lei da Terra.