Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 11/01/2021
Os Três R’s
“O mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles”. A afirmação da filósofa francesa Simone de Beauvoir descreve facilmente a normalização da cultura de cancelamento na atualidade, já que mais chocante que essa prática é o fato de a população se acostumar com ela. O “cancelamento”, que em seu surgimento visava denunciar comportamentos que ameaçavam a dignidade humana, hoje se tornou uma dessas ameaças devido ao tom agressivo que assumiu. Assim, entre os fatores que sustentam essa vicissitude estão a objetificação do ser humano e a naturalização da violência.
A princípio, a reificação - ato de transformar em “coisa” - do ser humano na contemporaneidade favorece o negativo avanço da cultura do cancelamento. Sobre isso, em sua obra “Vida para Consumo”, o sociólogo Zygmunt Bauman aponta que o ser humano vive em uma corrida para consumir e ser consumido, situação que faz os indivíduos verem uns aos outros como mercadorias - objetos que podem ser descartados quando não atendem às expectativas. Essa visão depreciativa dificulta o exercício da empatia na medida em que reduz o ser a “coisa”, o que facilita os ataques desmedidos aos “cancelados” e colabora para a desumanização dessas pessoas. Dessa forma, não é aceitável que a objetificação continue a contribuir para o cancelamento - a condenação implacável de um ser humano.
De outra parte, a naturalização desses ataques pela coletividade também alimenta o problema. Nesse sentido, se aplica o conceito criado pela filósofa Hannah Arendt de banalização do mal: a conivência geral com atitudes agressivas devido à incapacidade de refletir sobre elas de forma crítica e empática. Sendo assim, da limitação da empatia imposta pela objetificação do ser humano decorre a banalização social da violência e do consequente sofrimento enfrentados pelos “cancelados”. Nessa lógica, a cultura do cancelamento se torna cada vez mais prejudicial às vítimas, apoiada pela indiferença da sociedade.
Sendo assim, fica evidente a necessidade de se combater a cultura do cancelamento no meio hodierno. Para tanto, o Ministério da Cidadania deve promover uma campanha de conscientização nas redes sociais que trate das consequências negativas que o cancelamento pode trazer para as vítimas. Essa campanha poderá se chamar “Os Três R’s da Convivência Social - Refletir, Reumanizar e Respeitar”, e trará depoimentos de indivíduos que passaram pelo cancelamento, com objetivo de estimular a reflexão empática nas pessoas acerca da extensão dos impactos de suas ações sobre os outros. Dessa forma, essa campanha poderá contribuir para a recuperação de uma visão humanizadora na população e para a adoção de uma postura de respeito coletivo, o que favorecerá a desconstrução da cultura de cancelamento na sociedade contemporânea.