Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 13/01/2021
No episódio " Odiados pela nação", da série Black Mirror, pessoas são selecionadas por meio de uma votação nas redes socias para morrer. De forma análoga, hodiernamente, a sociedade contemporânea caracteriza-se pela formação de tribos sociais que pautam-se sob o viés de um mesmo discurso ideológico, que, ao seguir as normas do “politicamente correto”, cancelam indivíduos que fogem dos padrões de opinião predominantes. Além disso, a crescente vertente de intolerância nas relações humanas contribui para a consolidação da cultura do cancelamento, impasse que necessita ser mitigado.
Em primeiro plano, vale ressaltar que a necessidade de aceitação e pertencimento a determinados grupos contribui para a recusa perante àqueles que divergem das opiniões pré-estabelecidas. De acordo com o conceito de Microfísica do poder, do filósofo francês Foucault, o empoderamento de determinada tribo social está no discurso adotado por esta, o que dita os padrões de pensamento e aprisiona seus adeptos à homogeinização do senso crítico. Assim, como visto nas interações atuais, pessoas que fogem ao " politicamente correto" são frequentemente caceladas, haja vista a atriz Emma Watson, que foi linchada virtualmente por não aderir a bordas pretas nas fotos do Instagram no movimento " Black lives matter"
Outrossim, com a obsolência dos relacionamentos humanos na contemporaneidade, a dificuldade em tolerar opiniões divergentes é ainda mais evidenciada. Segundo o filósofo Zygmunt Bauman, o cenário atual caracteriza-se por ser uma Modernidade Líquida, na qual as relações entre os indivíduos é facilmente descartável, o que faz com que habilidades de empatia e respeito pelo próximo se tornem escassas. Logo, ao menor sinal de confrontamento à opinião da maioria, grupos preferem promover a exclusão de individuos com posicionamentos divergentes, em vez de aceitar a discordância como algo promissor para a elaboração de senso crítico.
Com base nessa perspectiva, é nítido que a cultura do cancelamento é um reflexo da contemporaneidade atrelada à intolerância, o que ratifica a necessidade de medidas que mitiguem a problemática. A princípio, o Ministério da Educação e Cultura, em parceria com as instituições de ensino, deve promover aulas interativas, com atividades lúdicas como peças e encenações, que demonstrem o fardo de uma pessoa " cancelada" diante da sociedade, de modo a ressaltar a importância do pensamento círitco e incentivar o rompimento da aceitação passiva de discursos pré-estabelecidos. Além disso, psicólogos, por meio de midias publicitárias devem apresentar conteúdos que façam o público ser mais tolerante a opiniões que divergem do comum.