Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 13/01/2021

Na obra “Utopia”, do escritor Thomas More, é retratada uma ilha imaginária na qual o corpo social padroniza-se pela ausência de conflitos e problemas. Todavia, o que se observa na realidade brasileira é o oposto do que foi idealizado por More, uma vez que ideologia do cancelamento destaca-se como um importante desafio a ser enfrentado pela sociedade. Esse cenário nocivo tem sua origem na carência de políticas educativas e possui impactos negativos. Logo, convém a análise dessa conjuntura com o intuito de mitigá-la.

Vale ressaltar, a princípio, a carência de políticas educativas que orientem a respeito dos malefícios da ideologia do cancelamento. Nesse sentido, a intolerância, a falta de diálogo e a incapacidade de se colocar no lugar do outro tornaram essa prática comum, principalmente nas redes sociais. Sob essa perspectiva, o educador Paulo Freire destaca a educação como elemento fundamental para mudanças sociais e, por isso, defendia um ensino capaz de estimular reflexões críticas que levem a uma maior compreensão da sociedade. No entanto, situações atuais vão de encontro a esse ideal na medida em que muitos jovens crescem sem aprender, no ambiente escolar, a discordar dos outros utilizando, no lugar de xingamentos e exposição, críticas bem embasadas e construtivas que contribuam para uma conscientização.

Além disso, há preocupantes problemáticas advindas desse contexto. Em vista disso, o linchamento virtual contribui para o aumento do discurso de ódio, onde pessoas colocam-se no direito de julgar, diminuir e punir o outro, sem considerar, inclusive, a saúde mental da pessoa cancelada. Nesse contexto, segundo o sociólogo Émile Durkhein, a sociedade deveria funcionar de maneira análoga a um organismo biológico, no qual as partes interagem harmonicamente entre si. Entretanto, nota-se que o país ainda está distante dessa realidade, visto que a cultura do cancelamento troca a responsabilidade de se buscar um aprendizado mútuo por uma polarização social destrutiva.

Portanto, providências devem ser tomadas para amenizar o quadro atual. Cabe ao Ministério da Educação criar um projeto para ser desenvolvido nas escolas que, por meio de oficinas pedagógicas, discussões engajadas e palestras, possua como finalidade trazer mais lucidez sobre os malefícios da ideologia do cancelamento para a sociedade e a importância de cultivar diálogos produtivos. Esses eventos devem contemplar desde a educação básica até o ensino superior e contar com a participação de profissionais especialistas no assunto. Assim, essas medidas estarão em conformidade com o pensamento de Paulo Freire, que procura transformar a realidade brasileira por meio da educação.