Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 15/01/2021
O episódio “Queda Livre”, da série “Black Mirror”, assume uma realidade em que as relações interpessoais estão diretamente ligadas ao desempenho de cada indivíduo em suas redes sociais. Desse modo, a personagem central, Lacie, mesmo empenhada em manter um bom status, tem sua reputação e conquistas destruídas durante uma breve sequência de acontecimentos adversos. Assim como na ficção de Charlie Brooker, a atualidade vivencia a chamada cultura do cancelamento, que consiste no julgamento virtual e instantâneo de ações consideradas inadequadas e que reflete em punições que transpassam a esfera da internet. Esse fenômeno, no entanto, é problemático, uma vez que superficializa o debate e constrói uma noção distorcida da realidade.
Em primeira análise, é preciso considerar que além da pressão estética acentuada entre os usuários de aplicativos como o Instagram, existe também a pressão intelectual na qual a cultura do cancelamento está inserida. Essa idealização é consolidada no fato de que as redes possibilitam a seleção daquilo que será recebido pelo público e, por isso, espera-se que o conteúdo compartilhado seja sempre agradável, o que é impossível no mundo real. Assim, quando alguem é responsável pela quebra de expectativa no meio virtual, este transforma-se em alvo de ataques massivos e por vezes, com consequencias desproporcionais. Essa tensão causada pela cultura do cancelamento além de ineficaz, resulta em prejuízos na saúde mental e contribui para manutenção da liderança de brasileiros no ranking de nação mais ansiosa do mundo, como mostram dados da Organização Mundial de Saúde.
Além da percepção fantasiosa dos fatos, outro ponto negativo da prática que se assemelha à sentença a que Lacie foi submetida é a limitação das discussões atuais. Isso, pois, os posicionamentos no meio virtual tendem a se manter dentro do raciocínio da maioria, evitando acrescentar pontos de vista que possam causar desconforto. Ademais, quando há o risco da divergência, os canceladores são ágeis em sua resposta, como ocorrido com a antropóloga Lilia Schwarcz, que apesar de significativas contribuições nas ciências humanas, teceu críticas questionáveis em seu artigo na folha de S. Paulo sobre o filme de Beyonce, e foi rapidamente cancelada. Por conseguinte, a reflexão e o debate dão lugar a discursos rasos, dificultando ainda mais a resolução de complexidades sociais.
Portanto, para dissociar a narrativa de Brooker da sociedade contemporânea, é essencial entender a nocividade da prática desenfreada da cultura do cancelamento. Desse modo, a Secretaria Especial da Cultura em conjunto com o Ministério da Educação devem incentivar a pluralidade ideologica. Isso deve ocorrer por meio de workshops itinerantes voltados para o público jovem, contando com debates sobre problemas estruturais e como amenizá-los, para que a tolerância seja aliada da cidadania.