Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 14/01/2021
O humorista e apresentador de TV Danilo Gentile, em entrevista à Jovem Pan, disse que tentam cancelá-lo, quer dizer, querem excluí-lo do meio social ou profissional, porque suas convicções políticas são diferentes do pensamento dominante entre os artistas. Esclarece, ainda, que só não conseguiram por causa das redes sociais que são espaços democráticos. Fato como esse enseja o debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade atual. Diante disso, cabe analisar se essa cultura é benéfica ou maléfica às relações sociais.
Em primeiro lugar, é importante evidenciar que o cancelamento é positivo quando houver clareza de que o indivíduo agride os Direitos Humanos. De acordo com o religioso, detentor do prêmio Nobel da Paz, Desmund Tutu: “Se você é neutro em situação de injustiça, você escolhe o lado do opressor”, ou seja, é fundamental que todo cidadão seja guardião dos direitos fundamentais da pessoa humana. Não é salutar, portanto, que um indivíduo ou grupos organizados continuem a promover ações que disseminem o ódio e o preconceito e ninguém reaja para detê-los.
Ademais, o cancelamento poderá ser negativo se for o caso, apenas, de divergências de ideias ou crenças. Nesse contexto, Pierre Bourdieu chamou de habitus o “capital cultural incorporado”. Esse, reflete o pensamento hegemônico em uma célula social ou na sociedade. Assim sendo, um grupo pode considerar, equivocadamente, errado aqueles que pensam diferentes do que foi incorporado por ele. Essa falsa percepção poderá levar à injustiça, como o cancelamento, pelo simples fato de não se tolerar o contraponto de ideias, que é uma característica indispensável na democracia.
Infere-se, desse modo, que a cultura do cancelamento carece de um pensamento crítico. Logo, as escolas devem preparar os alunos para serem disseminadores dos Direitos Humanos. Além disso, eles devem saber reconhecer a diferença entre o que é manifestação de ódio e o livre pensamento. Para isso, deve ser incluído no currículo, pelo Ministério da Educação, a disciplina de cidadania para abordar o tema. Os professores, por sua vez, que são os responsáveis pela formação das gerações futuras, devem promover oficinas com que visem a formação cidadã. Espera-se, com isso, melhorar o processo civilizatório na sociedade contemporânea, a liberdade de pensamento e o cancelamento dos que disseminam o ódio.