Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 04/04/2021

Patrulha ideológica

A ascensão do Partido Nazista da Alemanha implicou o uso do conceito de superioridade da raça ariana para justificar a segregação e extermínio dos judeus. De maneira análoga, cria-se uma falsa noção de justiça social ao utilizar a cultura do cancelamento para punir atitudes consideradas intoleráveis. Dessa forma, o crescente incentivo a condenação de condutadas reprováveis tem gerado a banalização do mal e a marginalização social dos cancelados.

Em primeiro plano, os julgamentos coletivos tornaram-se uma prática comum na sociedade. Nesse contexto, segundo a filósofa Hanna Arendt atitudes maléficas tendem a ser banalizadas e, por conseguinte, dinamizadas no meio social. Em paralelo à perspectiva arendtiana, a cultura do cancelamento tornou-se uma forma de manifestação banal, uma vez que pode ser reproduzida por qualquer sujeito. Dessa maneira, o filósofo Byung-Chu Han afirma que mobilizações como essas não são suficientes para a organização da esfera pública por serem pautadas na volatilidade e fluidez dos acontecimentos. Assim, tem-se, como efeito, a perda da credibilidade de tais temáticas no contexto nacional.

Salienta-se, em segundo plano, que a supressão gera segregação. Na concepção de Guy Debord o espetáculo é caracterizado como o conjunto de relações sociais mediadas pela imagem. Nessa conjuntura, ao se romper com as expectativas exigidas as pessoas tendem a ser excluídas do panorama em questão. Paralelamente, no meio digital, os influenciadores repreendidos são expostos a perda de contratos publicitários e a xingamentos dos usuários. Assim, cria-se uma ambiente dual pautado na perfeição do cancelador e na imperfeição do cancelado.

Infere-se, portanto, que a cultura do cancelamento carrega um falso ideal de justiça que resulta impactos na conjuntura atual. Outrossim, cabe ao Ministério dos Direitos Humanos, em parcerias com sociólogos, o dever de informar à população os danos resultantes da nova forma de se educar, por meio de debates, em canais abertos, que visam à exposição da situação econômica e sociocultural do país e como elas interferem nas relações sociais. Somente assim, com medidas eficazes, ter-se-à discursões saudáveis e educadoras ao se entender a ineficiência da patrulha ideológica pautada no senso comum.