Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 29/01/2021

Em meados do século XVIII, a Igreja Católica e a poderosa Inquisição marcaram o período de trevas da Idade Média, perseguindo e assassinando indivíduos considerados uma ameaça às doutrinas cristãs. Paralela a essa situação, a cultura do cancelamento, fenômeno muito presente nas redes sociais, massacra e apedreja erroneamente pessoas por deslizes do passado ou presente, ou então por situações mal interpretadas, nas quais o “cancelado” é julgado e condenado por indivíduos que não o conhecem e acreditam ter esse poder, porém que não cedem a ele o simples direito de dialogar.

Em primeiro plano, é fulcral ressaltar que a cultura do cancelamento tem se mostrado improdutiva dentro do meio brasileiro, uma vez que ao invés de debater o assunto e promover uma evolução da pessoa cancelada, há uma tendência dos usuários das redes sociais em somente enviar xingamentos a este e procurar formas de prejudicá-lo tanto em sua vida pessoal quanto profissional como forma de punição. Contudo, segundo o filósofo John Stuart Mill, a liberdade de expressão é sim muito importante para uma sociedade saudável, porém, ela deve ser utilizada em diálogos, nos quais as pessoas, ao ouvirem a opinião do outro, refletem sobre a sua própria visão de mundo e identificam possíveis opiniões ofensivas ou que ferem a liberdade alheia, e então reparam tais “erros”, o que não acontece dentro dos “cancelamentos”.

Em segundo plano, é válido destacar que, apesar de ser realizada de forma equivocada, a cultura do cancelamento se mostra positiva quando torna púbicos assuntos relevantes da sociedade que são deixados de lado pela população, como, por exemplo, o machismo e o racismo. Entretanto, o alcance das redes sociais é efêmero e muitas vezes não impacta de forma sólida a sociedade. Assim sendo, para formar uma sociedade crítica e justa, os debates sobre esses temas deveriam ser estruturais, ou seja, deveriam ser inseridos na educação de crianças e jovens. Dessa forma, seriam formados cidadãos conscientes e cientes dos direitos individuais, que saberiam lidar com opiniões contrárias, contribuindo para a evolução pessoal de todos, uma vez que segundo o pensador Paulo Freire, a educação não transforma o mundo, mas ela muda as pessoas e estas transformam o mundo.

Evidencia-se, portanto, que medidas são necessárias para que tamanho problema seja amenizado. Cabe ao Ministério da Educação, promover, em todas as escolas do país, durante os períodos de aulas das disciplinas de filosofia e sociologia, debates e palestras para crianças e adolescente sobre a importância de dialogar sobre assuntos diversos e de escutar as opiniões alheias sempre de forma aberta a novos conhecimentos e novas reflexões. Dessa forma, teríamos uma sociedade identifica e conserta os seus erros, ao invés de somente apontá-los.