Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 24/01/2021
“Que se atire a primeira opinião”
A cultura do cancelamento é um debate que se faz urgente na sociedade contemporânea, extremamente invadida e dependente por mídias e tecnologias virtuais, que atuam diretamente como polícia e justiça social através do avatar e da projeção hologramadas de cada sujeito. A ferramenta que ao mesmo tempo busca a equidade dos direitos humanos, nela mesmo se fecha, e ataca o seu próprio cerne essencial, a empatia com o ser humano.
À medida em que o cancelamento se mostra uma possibilidade de engajamento e discussão social, através da exposição e confronto com aqueles que tidos como “cancelados” foram expostos, ele também revela seu caráter autocrático da opinião. Conhece-se que o ser humano, em suas diversas e complexas formas de se organizar historicamente na sociedade, já demonstrava esse caráter linchador com o estrangeiro, ou seja, com aquele que pensa e age culturalmente de forma diferente a ele. O fato é que com as novas tecnologias de propagação e disseminação da informação, a opinião se torna um elemento espontâneo, e através de algoritmos virtuais se multiplica em redes de conexão punitivas contra alguém, criando sem que se perceba um efeito manada de exclusão social.
Contudo deve-se entender que figuras públicas e até mesmo usuários comuns, se tornam cada vez mais responsáveis pelos seus atos e publicações, por medo de sofrerem retaliações e serem cancelados. Porém, essa medida não pensa na ressocialização dos acusados, e muitas vezes se torna apenas um ato de fetichização em punir o outro, se afastando do caráter do debate e diálogo, que contribuem para reconhecer a complexidade humana e educações sociais diversas. A exemplo disso se dá ao fato de que figuras públicas utilizam redes sociais como ferramentas de seus trabalhos, e estão passíveis a erros e falas preconceituosas, como todos, porém diferente do que se dá em um ambiente doméstico, com amigos, se colocam um termo de forma equivocada em suas falas, são excluídas pela sociedade que as financia. Assim, sem o direito de resposta, sem o direito de entender os motivos, muitas vezes por ser completamente afastada de seu meio, desenvolvem problemas depressivos que podem levar ao suícidio.
Portanto, antes de agir como polícia do pensamento, a sociedade deve entender as ferramentas que possibilitam a discussão como forma inclusiva de debate, e não linchamento social. Para que então assim não se torne uma via de mão única, mas um diálogo com o diferente, podendo-se reconhecer a complexidade humana que acerca nossas relações, evitando que se reproduza o ódio pelo ódio, e reconhecendo a responsabilidade da opinião em uma sociedade passível ao erro.