Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 31/01/2021
Em meados de 2017 se plantaram as sementes para a atual “cultura do cancelamento”, inicialmente uma forma de se expor casos de abuso sexual e outros crimes nas redes sociais (muitas vezes sem verificar a veracidade das acusações), porém que não abrange apenas crimes atualmente, mas também quaisquer posicionamentos opostos a maioria ou algum grupo de usuários das redes ou, até mesmo, a falta de um posicionamento relativo a alguma situação. Todavia, muitas vezes o motivo principal para realização do cancelamento não é nenhum dos que primeiramente vem à mente.
De acordo com o pai da psicologia analítica Carl Gustav Jung, a uma parte inconsciente da mente que contém tudo que o indivíduo considera ruim, a Sombra. Para lidar com essa parte desagradável de nós, muitas vezes vemos outros como ruins, gananciosos ou destrutivos, o que é chamado de projeção da sombra. A cultura do cancelamento acabou se tornando uma forma de projetar o que consideramos indesejável em nós mesmos em outros indivíduos.
Contudo o solo no qual essas sementes germinaram não é tão novo quando imaginámos, no século VI a.C. em Atenas havia uma punição semelhante, o ostracismo. Era formada uma assembleia na qual cada um escrevia secretamente o nome dos acusados e aqueles que fossem citados mais de seis mil vezes, eram condenados ao ostracismo (banimento da vida pública por uma década). Essa ferramenta política teria como seu propósito original a resguarda da democracia, entretanto, como Aristóteles reconheceu na sua obra “Política”, este princípio ao invés de ser aplicado para o bem da democracia, foi usado para banir aqueles que se opunham a políticas apoiadas pela maioria do eleitorado.
Portanto, assim se percebe que o cancelamento é uma prática com uma origem nobre, mas, devido ao impulso no qual propagam esses casos e sem verificar a veracidade dos mesmos, pode-se muitas vezes configurar o crime de calúnia (imputar falsamente fato definido como crime). Assim se faz necessária maior veemência das redes sociais na fiscalização do conteúdo presente nas mesmas e que o Ministério da Educação e Cultura (MEC) crie campanhas para conscientização sobre o crime de calúnia e outros crimes contra a honra.