Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 25/01/2021
As redes sociais são uma ferramenta poderosa para a demonstração política de insatisfação com manifestações consideradas politicamente incorretas. Por outro lado, a recente onda de boicotes, exposições público-virtuais, bem como, linchamentos por divergências de ideias, disfarçadas de justiça social, demonstram a inacapacidade dialética social ao lidar com temas que deveriam ter uma abordagem mais profunda, por serem complexos e dinâmicos. Além disso, a presente era das notícias falsas, marcada pelo sadismo do espetáculo, torna o fenômeno ainda mais perigoso tanto para celebridades, quanto para pessoas anônimas.
Primeiramente, o movimento de “cancelamento” surgiu de forma legítima, para denunciar e expor criminosos sexuais (como é o caso do “Mee Too”) e outros tipos de criminosos, cujas práticas eram protegidas por uma rede de privilégios sociais e culturais, o que dificultava suas respectivas punições. No entanto, esse movimento desvirtuou-se e passou a ser usado de maneira radical e impensada, para perseguir desafetos políticos, ideológicos ou até mesmo sinalizar virtudes, considerando o momento global de polarização e da guerra do “nós” contra “eles”: para além de qualquer disposição jurídica e democrática, nas redes sociais, os crimes de opinião ressurgiram. Nessa “guerra”, é necessário ficar do lado considerado correto e a decisão de qual lado é correto, muitas vezes é arbitrária.
A escritora J.K Rowling, antes, íncone intelectual e moderno lisonjeado, foi acusada de ser transfóbica depois de tecer comentários que foram concebidos negativamente por parte da comunidade virtual e foi “cancelada” instantâneamente. Se não fosse o poder de fala e alcançe que Rowling tem, enquanto figura famosa, mal poderia explicar suas convicções ou retratar-se. O mesmo não aconteceu com o americano Emmanuel Cafferty, até então anônimo, que perdeu o emprego depois que um vídeo fora de contexto e com possibilidade de múltiplas interpretações, foi parar nas redes sociais sob o escrutíneo de militantes. No vídeo, Emmanuel apenas faz um sinal de “ok”, que foi interpretado como ato de supremacia branca - sem ter nada, no caso específico, que justifique tal interpretação.
Dessa forma, fica evidente que as mídias (jornais, canais de youtube, redes sociais), por serem veículos de informação e debate, devem assumir o papel importante enquanto mediadoras e fomentadoras do debate público lúcido, respeitoso e racional, no intuito de mitigar as tensões e desproporções da forma com que o público lida com a diversidade de opiniões e ideias. Sob o mesmo ponto de vista, os movimentos sociais também devem enfrentar o sintoma de intolerância, ao estabelecerem o dialógo com os seus membros, por exemplo, por meio de podcasts, visando a reflexão a respeito do combate ao discurso de ódio, sem fazer uso do próprio e de forma justa.