Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 31/01/2021
A importância da livre discussão é expressa na filosofia de Jurgen Habermas, pensador alemão da escola de Frankfurt, que através da teoria da ação comunicativa defende o debate como forma de construção de um consenso acerca das questões morais. Entretanto, o agir comunicativo é muitas vezes deixado de lado e substituído por críticas rasas fundamentadas nas opiniões próprias de cada um, onde o ponto de vista do outro não é levado em consideração. Isso é potencializado pelas redes sociais, principalmente dentro daquilo que conhecemos como “cultura do cancelamento”.
O ato é de “cancelar” uma pessoa vem sendo cada vez mais recorrente nos meios midiáticos, os alvos normalmente são figuras públicas que defendem ou apresentam uma postura que não está de acordo com os padrões morais vigentes. Dentro da ficção, essa situação é abordada no episódio “hated in the nation’ da série britânica Black Mirror, onde a morte de indivíduos cuja reputação é impopular nas redes sociais tem como motivação hashtags que incitam ódio e desprezo. Porém a trama tem sua reviravolta quando os grupos de pessoas que fizeram as críticas tornam-se objeto de perseguição e, assim temos como foco reflexivo o debate sobre a linha tênue entre moralidade e hipocrisia.
Ao mesmo tempo em que é importante o combate ao discurso de ódio disfarçado de opinião, também é preciso estabelecer um limite em relação ao que pode ser corrigido e aquilo que tem que ser combatido. A maioria dos usuários da internet que costumam discordar de determinadas posições automaticamente isolam ou tratam de forma agressiva àqueles que defendem ideias controversas e, o que poderia ter sido oportunidade de aprendizado acaba se tornando uma confusão generalizada.
Desde Sócrates o diálogo é colocado como principal referência na busca pelo conhecimento. Portanto, é necessário que tanto as escolas quanto os meios de comunicação incentivem o debate e a construção de consensos a fim de promover tolerância e respeito à subjetividade de cada cidadão. A democracia é preservada através da livre expressão e, é justamente por isso que as imposições ideológicas precisam ser questionadas e assim dar espaço ao agir comunicativo.