Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 31/01/2021

Joanne K. Rowling, escritora popular por ter escrito a franquia de livros Harry Potter, foi recentemente ‘‘cancelada’’, ou seja, reprovada por diversas pessoas em mídias sociais distintas, acusada de ter assumido uma postura transfóbica, publicamente. Diante de tal fato, comprova-se a atualidade da cultura do cancelamento no Brasil. Sendo assim, destaca-se a importância da pertinência dessa cultura, exercida de forma pacífica, uma vez que a sociedade depende de críticas às práticas de seu corpo, críticas estas que, na maioria das vezes, não serão colocadas pelo Estado, mas serão omitidas. Desse modo, fica claro que as redes sociais se tornam um palco propício para exposição de tais críticas, e que a cultura do cancelamento, praticada de forma saudável, tornar-se-á um bom mecanismo para a população que precisa protestar.

De início, sabe-se que a cultura do cancelamento não é uma questão nova, desde sempre a insatisfação levou homens e mulheres a reprovarem atos de governantes, orgãos públicos e até de pessoas pertencentes ao seu convívio social, o que gerou muitas mudanças positivas para aqueles que demonstraram insatisfação. Por exemplo, a Lei Áurea, lei que aboliu a escravidão no Brasil em 1888, foi fruto, principalmente, de uma insatisfação de abolicionistas e dos próprios escravos, que gerou uma mobilização desses grupos contra o trabalho escravo. Portanto, evidencia-se a frase do filósofo Jurgen Habermas: ‘‘A sociedade é dependente da crítica às suas próprias tradições.’’ Além disso, confirma-se a eficácia da cultura do cancelamento, nesse contexto. Uma vez que, a mobilização de um grupo, inicia-se pela crítica.

Ademais, é importante destacar que há questões as quais não são abordadas pelo Estado, não se observa um posicionamento claro, por isto, a sociedade precisa intervir nessas questões para que haja, de fato, uma mudança. No que tange ao posicionamento da sociedade, Martin Luther King disse: ‘‘Quem aceita o mal sem protestar, coopera com ele.’’ Dessa maneira, prova-se a relevância de não se omitir, de criticar, de uma forma fleumática, a respeito daquilo que não levará ao bem comum, que não é conveniente para o bom funcionamento de uma comunidade, já que, muitas vezes, o Estado se omite.

Por fim, é preciso que medidas sejam tomadas para incentivar a crítica saudável, o manifesto desprovido de ataques. Primeiramente, cabe aos professores das escolas, promover, de modo fictício, situações em que uma atitude ou situação incabível é apontada, afim de que os alunos critiquem, da maneira citada acima, e que, de preferência, não seja uma vertente muito explorada pelo Estado. Logo, por meio desses embates, haverá um estímulo interessante para que a sociedade possa se mobilizar e consequentemente, progredir, como ocorreu no contexto da abolição da escravidão.