Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 31/01/2021
Historicamente, a humanidade sempre teve um grupo opressor e um grupo oprimido, onde o grupo opressor ditava as regras, normalizava preconceitos e possuia a palavra final. Com a popularização do acesso às redes sociais, vindo em paralelo a toda uma geração de pessoas que convivem com a internet desde seus primeiros anos de vida, surgem fenômenos intrínsecos a esse momento, sendo um dos mais discutidos hoje em dia a “cultura do cancelamento”. Esse movimento ocorre simultaneamente à volta da ascenção e normalização de discursos de ódio no Brasil e no mundo onde, como oposição, surge um grupo de pessoas, minorias ou não, que buscam que quem pratique atitudes ofensivas, desrespeitosas ou até mesmo criminosas seja cobradas e julgadas por suas ações.
Nunca houve igualdade entre o julgamento que sofre a elite e as pessoas marginalizadas, uma vez que é a própria elite quem cria e coordena o sistema penal e o judiciário. Assim, o surgimento de um “júri” expontâneo na internet, onde a parcela oprimida da população pode criticar livrimente quem perpetua esses comportamentos nocivos, gera desconforto no grupo dominante que, ao invés de refletir sobre essas críticas, reage com reclamação e alarde, argumentando, por exemplo, que não existe abertura para defesa, o que apesar de ser um comentário válido, também sempre pôde ser aplicado a essas mesmas minorias, como a população negra que ainda hoje no Brasil é encarcerada e assassinada diariamente sem justificativa ou direito a própria defesa, e que sempre foi ignorada.
Assim, a cultura do cancelamento sofre dessa falsa simetria onde mesmo que realmente não esteja livre de críticas, ainda assim possui um mérito muito maior do que sua oposição faz acreditar, afinal é um fenômeno natural de grupos que sempre foram afetados pela injustiça e que inevitavelmente pode e vai criar mal-entendidos e conflitos, mas que ainda assim preenche um vácuo que o estado falha em cumprir em sentenciar igualmente a classe oprimida e dominante, já que o mesmo depende dela. Dessa forma, o ideal não seria uma tentativa de impedir a cultura do cancelamento, mas sim torna-la desnecessária.
Portanto, uma proposta a curto e longo prazo seria a ampliação da voz e o fomento da luta dessas minorias, que sabem melhor quais são suas demandas e suas opiniões. Além disso, grande incentivo à educação e principalmente ao ensino das ciências humanas, buscando abordar essas questões de maneira racional e diversificada, uma vez que se apenas esperarmos o estado nunca tomará uma atitude, já que é inerente ao cis-heteropatriarcado branco, o qual é justamente o motivador desses discursos de ódio e segregação.