Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 12/02/2021

A Santa Inquisição, criada na Idade Média, tratava-se de uma espécie de tribunal religioso que condenava todos aqueles que eram contrários aos dogmas e doutrinas da Igreja Católica vigente. Nuances dessa conjuntura apresentam-se de semelhante modo no século XXI, a saber, pela eminente cultura do cancelamento que, de forma majoritária, propicia a disseminação da violência verbal, além de dificultar o debate por parte dos sujeitos.

É válido destacar, em primeira instância, que a exclusão de um sujeito, baseada em suas atitudes, pressupõe uma espécie de “justiça” com as próprias mãos, visto que o cancelador, a partir de parâmetros que, para ele, são morais, condena o outro sem dar a ele chance de defesa. Nesse ínterim, Voltaire, filósofo francês, aponta que a civilização não suprime a barbárie, mas aperfeiçoa-a. Sob tal ótica, a segregação social pautada possibilita a propagação de discursos de ódio, capazes de promover o caos individual, sancionar medidas de punição abusivas e, por corolário, colocar em xeque a saúde mental dos exclusos, além de corroborar a utopia de uma sociedade cordial.

Outrossim, o caráter crítico do corpo social, expresso pelo debate, é fator imprescindível para desmistificar concepções e condutas equivocadas pela comunidade. Nese sentido, para o sociólogo Émile Durkheim, o indivíduo só poderá agir na medida em que aprender a conhecer o contexto em que está inserido.  Destarte, tal fator é aplicável às relações interpessoais, dado que a consciência de que toda a humanidade é falha e, por isso, necessita de chances para progredir, sanciona uma conjuntura cuja alteridade é aspecto basilar. Não obstante, a cultura do cancelamento acaba por dificultar a sensibilização dos sujeitos, posto que os indivíduos naturalizam o papel de juízes, cuja judiciatura, muitas vezes, tona-se o meio cibernético e, por consequência, concretiza a intolerância como simbologismo de opressão.

Mediante o elencado, urge que medidas sejam implementadas para a mudança do cenário cultural de cancelamento. Sendo assim, compete ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos elaborar um projeto de simpósios, entregue à Câmara dos Deputados. Tal ação será propagada por meios midiáticos, como internet e televisão, e redigida por profissionais na área da Antropologia e Psicologia, a fim de problematizar os danos causados tanto aos excluídos, como no  tocante ao processo de formação da sociedade, cuja violência simbólica acaba por ser implementada de maneira subtentida na sociedade. Almeja-se, com tal medida, a diminuição da violência verbal, a maior probletização mediante o debate crítico acerca do tema e, por fim, a extinção das nuances repressoras advindas da Idade Média.