Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 02/03/2021

O surgimento do movimento #MeToo, que expunha os nomes de agressores sexuais e casos de assédio como forma de vulnerabilizar os autores, foi um dos meios que deram origem ao que se auto-intitula como a “cultura do cancelamento”. Nunca será aceitável que os erros de uma pessoa, sejam eles mais simples ou absurdamente complexos, se tornem banais sem formas de solução. Porém, nos dias de hoje, o cenário visto por todos é de usuários de redes sociais, principalmente o Twitter, que humilham, torturam com palavras e tiram amigos ou emprego de alguém que agiu equivocadamente, ou pareceu agir assim, dando a entender que essa é a forma correta de justiça. Portanto, é de suma importância a adoção de medidas éticas e mais humanas para lidar com a era do cancelamento.

É preciso, em primeiro lugar, lembrar que, segundo a Veja, a campanha #MeToo foi um recurso utilizado para dar voz às mulheres, criticar atitudes que ainda perduram no século XXI, questionar o que poderia mudar isso e denunciar. Algumas ações, inclusive, podem se encaixar em outras situações cotidianas também, como racismo, homofobia, machismo etc. Como resultado, esses movimentos funcionam como formas de conter o avanço de problemas sociais muito decorrentes no mundo atual.

Por outro lado, o crescimento dessa forma de manifestação, nas redes sociais, fez com que os usuários desenvolvessem um olhar mais crítico para a vida alheia, julgando quaisquer atos incorretos e destruindo a reputação das pessoas. Como ocorreu com um migrante palestino, dono de uma rede de padarias que, segundo a BBC News, foi cancelado porque usuários descobriram posts antigos de sua filha, que trabalhava na sua empresa, sendo racista e anti-semita nas redes sociais. As informações foram divulgadas em massa e ele perdeu todo o apoio financeiro, além dos compradores cancelarem todos os contratos. Em outras palavras, a sociedade virtual está criando um conceito errado de justiça, sem ser aberta a arrependimentos e recomeços.

Assim sendo, é imprescindível a criação de ações que saibam lidar com a era do cancelamento na sociedade contemporânea. Antes de mais nada, os pais, responsáveis pela educação de seus filhos, devem instruí-los sobre justiça, empatia e os perigos dos meios sociais, por meio do diálogo, para que eles saibam lidar futuramente com uma ação inadequada ou permitam que as autoridades legais cumpram seus deveres. Ademais, as redes sociais, especialmente o Twitter, devem reforçar limites que proibam comentários opressores que retirem os direitos de um cidadão ou façam uso de pressão e chantagem, mediante a exclusão automática de qualquer comentário que não aja conforme as normas, afim de garantir um maior controle e filtragem do que os usuários irão absorver das mídias. Dessa forma, será possível garantir o fim da cultura do cancelamento e o início de uma sociedade mais justa.