Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 09/02/2021
O advento da internet para a comunidade civil trouxe inúmeros benefícios tais como a possibilidade de expressar opiniões e pautas, que antes apresentavam pouca visibilidade. Por consequência disso, diversas mobilizações como lutas feministas, antirracistas e LGBTQ+, passaram a utilizar as redes sociais com fim de combater práticas consideradas inadequadas que são executadas por outrem. E assim, eles promovem boicotes a personalidades, marcas e produtos incentivando o não-consumo de modo a pressioná-los exigindo medidas de retratação. Essa modalidade de atuação nos meios digitais é denominada cancelamento, que ao tentar promover mudanças nas estruturas da sociedade contemporânea através da alteração dos hábitos individuais, acaba por promover a repressão à liberdade de expressão das pessoas, que temem reações retaliativas em manifestações públicas.
Porém é necessário ressaltar a diferença entre manifestação de opinião e propagação de discursos de ódio, já que opinar é expressar ideias respeitosas que não atentem contra a raça, gênero ou religião de alguém, diferentemente do que ocorre no segundo termo. Ao realizar a diferenciação do caráter opinativo ou odioso de um discurso, em seguida deve-se promover o debate racional a fim de aceitar ou refutar ideias. Entretanto, devido a velocidade de informações transmitidas na internet, um deslize cometido virtualmente, rapidamente é disseminado por toda a rede promovendo a sanção prévia do cancelado sem espaço para defesa ou até mesmo para aprendizado, já que o diálogo é renegado.
A sociedade ao atuar dessa maneira no mundo virtual, buscando melhorias sociais acabam por trazerem mais entraves à própria mudança comunitária, já que promove a deturpação da centralidade das lutas, o foco não passa a ser mais o machismo por exemplo, e sim uma atitude machista cometida por alguma celebridade. Uma questão complexa que pode abranger áreas históricas, culturais e econômicas passa a ser reduzida e relevada midiaticamente a uma ação individual e isolada. Além disso, a militância passa a ser algo superficial, pois grupos econômicos e figuras políticas passam a proferir discursos que concordem com opiniões padronizadas como algo bom, preocupando-se apenas com o impacto econômico e público que um possível boicote generalizado provocaria.
Deste modo, é necessário reconhecer o caráter antidemocrático que a cultura do cancelamento promove, ao provocar o temor da expressão, negação da possibilidade de defesa, danos psicológicos e econômicos causados a pessoas canceladas na internet. O Ministério da Educação deve promover a divulgação de campanhas publicitárias via meios midiáticos, de modo a propagar a importância do debate saudável e reconhecimento de discursos de ódio nas redes. E assim, será possível promover maior liberdade de expressão na sociedade.