Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 25/02/2021

Durante a Idade Contemporânea, os movimentos de desconstrução de normas sociais previamente estabelecidas, como o Iluminismo, cresceram exponencialmente de relevância. Hodiernamente, no entanto, formas imprudentes de combate a essas mesmas injustiças por intermédio das redes sociais, conhecidas como “cancelamentos”, vêm se tornando uma problemática cada vez mais corriqueira. Essa realidade é, infelizmente, decorrente de uma série de fatores, como a banalização desses atos pelo coletivo e a falsa sensação de poder que esses atos propiciam.

Em primeira análise, de acordo com o pensador Georg Simmel, independente de quão absurdo seja um acontecimento, caso esse se torne cotidiano, a sociedade se acostumará a ele e irá tratá-lo com naturalidade. Tal conjectura demonstra, precisamente, a situação na qual a nação está imersa, uma vez que um indivíduo ser “cancelado” por qualquer motivo se tornou algo relativamente comum. Nessa perspectiva, essa cultura, embora absurda, se torna invisível perante o julgamento popular, visto que casos dessa espécie já se tornaram parte da rotina de todos os cidadãos. Dessa forma, aqueles que praticam a represália virtual, ao não receberem retaliação alguma, se sentem ainda mais motivados a fazê-la, formando, assim, um ciclo.

Concomitante a isso, o errôneo sentimento de superioridade concedido pelos cancelamentos é um problema em evidência. Nesse sentido, os justiceiros virtuais, sob o manto do politicamente correto, impõem suas opiniões como absolutas sem a possibilidade de debate, pois aqueles que se opusessem seriam rotulados de extremistas pelo resto da população. Esse contexto se encaixa, perfeitamente, no que o sociólogo Durkheim define como “dominação”, em que uma pessoa ou um grupo, com base em um recurso previamente obtido, como a vantagem de discurso, podem impor suas próprias crenças aos outros como incontestavelmente corretas. Assim, torna-se impossível invalidar essa ideologia, e, ou por temerem ser suas próximas vítimas ou pela ânsia da sensação de predominância, cada vez mais internautas sujeitam-se a ela, aumentando, assim, a força desse movimento.

Faz-se necessária, destarte, a reversão desse quadro crítico no qual o Brasil se encontra. Nessa lógica, cabe ao Poder Legislativo elaborar projetos que, por meio de parcerias com as empresas donas das redes sociais, criem programas que ocorram tanto virtualmente quanto em espaço público e que debatam temas da atualidade com representantes de opiniões opostas. Essa conversa deve, também, estimular os telespectadores a conjecturar de maneira independente por meio de questionamentos reflexivos, para que desenvolvam ideologia própria e não se submetam ao que os “canceladores” ditam como correto e, enfim, o Brasil seja um país com plena capacidade de expressão e pluralidade de ideias.