Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 13/03/2021

A série britânica “Black Mirror” popularizou-se por criticar aspectos da sociedade contemporânea com o uso da ficção científica. O episódio “Queda Livre” retrata uma sociedade fictícia onde a reputação dos indivíduos é medida por um aplicativo onde os usuários atribuem notas aos demais e, caso a nota de um indivíduo seja baixa, ele será socialmente excluído. Fora da ficção, tal aplicativo pode ser comparado a “cultura do cancelamento”, uma prática que visa expor indivíduos que portaram-se de modo considerado moralmente errado pelo senso comum. Tal prática surgiu com o intúito de quebrar padrões da sociedade e promover empatia, no entanto, foi transformada em um meio de propagação de ódio e opressão. Desse modo, faz-se necessário debater sobre as causas que corroboraram para a perpetuação dessa prática nociva, tais como o individualismo e a impunidade dos indivíduos.

A priori, é preciso analisar como o individualismo é um fator determinante na perpetuação da cultura do cancelamento. Na obra “Modernidade Líquida”, o filósofo Zygmund Bauman mostra como as relações humanas são frágeis e maleáveis, fortemente influenciadas pelo egoísmo e pela individualidade. A teoria de Bauman pode ser usada para definir como a cultura do cancelamento está mais relacionada à artificialidade do “cancelador” do que às ações do “cancelado”, visto que as questões pessoais do cancelador tornam suas relações humanas frágeis, fazendo com que sua empatia seja artificial e sua tentativa de oprimir o cancelado esteja relacionada com o próprio ego.

Ademais, a impunidade dos indivíduos envolvidos na cultura do cancelamento colabora tanto para a manutenção da cultura do cancelamento quanto para a sua ampliação. Segundo Martin Luther King Jr., ativista estadunidense, “a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar”, desse modo, nota-se que a não criminalização da e opressão dos “cancelados” nas redes sociais torna-se um obstáculo para a extinção da cultura do cancelamento e para a criação de um ambiente livre de violência nas redes sociais.

Portanto, infere-se que medidas devem ser tomadas para modificar esse cenário. Para que a cultura do cancelamento perca força, cabe ao Ministério da Educação, em conjunto com as escolas, realizar aulas que em que sejam debatidos assuntos que suscitem o posicionamento dos alunos, por meio de uma alteração na matriz curricular de ensino, visando mostrar que a opinião alheia deve ser respeitada. Ademais, cabe ao Ministério da Justiça crie ações de penalidade, por meio da aplicação de multas e punições efetuadas pela Polícia Federal, aos individuos envolvidos em opressão nas redes sociais. Desse modo, a reputação dos indivíduos dependerá ainda menos da sua vida online.