Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 21/03/2021

“Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio”. O pensamento do filósofo Heráclito consagra o movimento perpétuo do mundo e as suas mudanças. Entretanto, a persistência da cultura do cancelamento nas redes sociais impede as transformações no Brasil, pois inviabiliza o diálogo e impede os indivíduos de reconhecerem os seus próprios limites. Desse modo, são prementes estratégias para combater os linchamentos virtuais, em nome da integridade mental dos cancelados.

Em uma primeira análise, é fato que os linchamentos promovem uma inviabilização da troca de ideias no meio virtual. Nesse viés, em seu livro “Um olhar a mais”, o psicanalista Antonio Quinet afirma que o mundo contemporâneo é mediado pelo olhar. A partir dessa premissa, o olhar intolerante de muitos usuários de redes sociais em relação ao pensamento dos outros transforma esse ambiente em uma espécie de tribunal do ódio, pois muitos se julgam aptos para subjugar, por exemplo, atitudes vistas por eles como incorretas. Assim, as redes sociais se tornam um palco de opressão coletiva, no qual as pessoas públicas - que já eram um alvo fácil para julgamento - ficam muito mais vulneráveis e têm a sua liberdade de expressão reduzida e monitorada a qualquer momento, mitigando o diálogo.

Outrossim, o cancelamento impede o reconhecimento dos próprios erros pelos indivíduos. Sob esse prisma, consoante aos versos do poeta Drummond, “no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”, o linchamento virtual configura-se como uma “pedra” no caminho de muitos usuários da internet. Isso porque os meios de comunicação sem supervisão contribuem para a falta de empatia na sociedade, visto que muitos, em razão de uma postura arrogante, acham-se “donos da verdade” e minimizam a opinião alheia, fato ilustrado pelo ocorrido com a blogueira Alinne Araújo, a qual cometeu suicídio provocado pelas críticas do “tribunal do ódio”. Posto isso, são inegáveis os efeitos devastadores advindos das críticas brutais nas redes sociais, em razão da conduta soberba de muitos usuários incapazes de reconhecer sua própria ignorância.

Infere-se, portanto, que a cultura do cancelamento inviabiliza o diálogo e impede as pessoas de reconhecerem seus limites. Logo, é basilar que o Ministério da Educação promova campanhas, por meio de propagandas, em parceria com as mídias sociais, com ensinamentos sobre maneiras positivas de usar o poder de opinião e coletividade popular on-line, com a finalidade de enfatizar os benefícios e malefícios conquistados com tais ferramentas e direcionar os indivíduos, ao usarem tais aparatos, para a união geral e discussões necessárias. Dessa forma, a internet poderá tornar-se um local de exposição de pensamentos de uma forma segura e afetivamente responsável e inibir a disseminação de ‘’pseudo- juízes’’ de moralidade e linchamentos cibernéticos.