Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 21/03/2021

O livro “1984”, de George Orwell, retrata uma sociedade a qual os indivíduos são punidos e excluídos ao não atenderem à expectativa do padrão de correto. Sob essa ótica, no meio digital, a massa reprime usuários que cometem erros e boicota o conteúdo dos cancelados. Nesse contexto, a cultura do cancelamento nas redes sociais contraproduz para a mudança e pode destruir a vida do alvo de críticas. São prementes, pois, estratégias para promover um diálogo saudável e o respeito aos direitos humanos.

Em primeira instância, o “Mito da Caverna”, de Platão, evidencia um grupo de pessoas numa caverna sem acesso à luz do conhecimento. Analogamente, a cultura do cancelamento afasta o boicotado da iluminação do saber, pois inibe o debate e o aguçamento do senso crítico. Nesse sentido, em virtude das severas críticas e perda de seguidores e de patrocinadores, os cancelados não têm a oportunidade de refletir criticamente sobre os seus atos e podem aceitar a ideia imposta pela web sem, de fato, compreenderem o que foi proposto. É notório, assim, que o boicote digital não colabora para mudar estruturas sociais, apenas distancia as pessoas do respeito e da tolerância.

Para além dessa reflexão, a participação da cantora Karol Conká no “Big Brother Brasil 21” foi marcada por erros, e parte da internet reagiu com comentários desumanizados e racistas. Tal fato corrobora que o cancelamento resume o cancelado ao erro e aliena os usuários ao ponto de esquecerem que errar é inerente ao ser humano. Nesse viés, o alvo de críticas, geralmente, não recebe empatia e é humilhado e julgado ao ponto de desenvolver traumas irreversíveis, como ocorreu com o influenciador Byron Bernstein, que se suicidou após ser cancelado. Logo, é irrefutável que o linchamento virtual pode afetar, desproporcionalmente, a vida do boicotado.

Infere-se, portanto, que a cultura do cancelamento nas redes sociais é um obstáculo para a mudança de comportamento e pode destruir a vida do cancelado. Dessa forma, é imperioso que o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações promova seminários educativos, em suas plataformas digitais, por meio de debates e palestras, acerca das consequências do boicote digital e de como propor ideias com respeito, com o fito de alertar os internautas sobre os seus comportamentos digitais. Destarte, a internet poderá ser um espaço alinhado com os direitos humanos e repleto de diálogos saudáveis.