Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 27/03/2021
Berço da democracia ocidental, a pólis ateniense também foi palco de censura e proces-
sos antidemocráticos, a exemplo do ostracismo. Objetivando a preservação da ordem e do
bem-estar social, a Assembleia do Povo votava para que as “fissuras” na instituição fos-
sem exiladas por dez anos. Na contemporaneidade, ostracizar indivíduos por diferenças
ideológicas tornou-se um fenômeno impulsionado pelas mídias sociais, de modo que, coleti-
vos, dotados de certezas morais ofuscantes, promovem de um simples boicote ao desenfreado
linchamento virtual.
Nesse recorte, é indissociável à internet a existência enquanto ferramenta de poder, de ma-
neira que, possibilitou a inserção de vozes historicamente marginalizadas em debates
elitizados. Assim, o que viria a ser a cultura do cancelamento, obteve em sua gênese
a alcunha de justiça social. Entretanto, conforme evoca a estilista inglesa, Ayishat
Akanbi, a internet encoraja a enxergar o mundo, tal qual uma guerra entre bem e
mal. Diante disso, internautas acolhem a consciência moral, enquanto juíz infa-
lível, e fazem das redes sociais tribunais, em que famosos e anônimos são sub-
metidos à vergonha pública e à destruição midiática.
Outrossim, é perceptível que o comportamento dos milhões de usuários, em ferra-
mentas como “Instagram” e “Twitter”, está marcado por um controle social informal, uma
vez que, alheio às leis, fundamenta-se em normas de conduta compartilhadas, como crenças e
costumes. Nesse viés, a teoria panóptica de Michel Foucault defende que a ideia de es-
tar sendo constantemente observado, induz a ações dóceis compulsórias. Em vista disso, a
cultura do cancelamento, na era digital, torna preferível instaurar no “prisioneiro” o senti-
mento de constante vigilância, do que vigiá-lo de fato. Dessarte, marcas tomam atitudes
sumárias, ao passo que personalidades e pessoas comuns recorrem à autocensura.
Portanto, evidencia-se a urgência de posturas abertas ao diálogo e à instrução daqueles que por
desinformação reproduzem discursos absurdos. Destarte, cabe à rede midiática, virtual e televisiva,
por meio de seus canais de distribuição ofertar debates e comerciais acerca dos efeitos detrutivos
da exclusão ideológica, de modo a fomentar a comunicação plural e mitigar a dicotomia inerente. À
vista disso, tornar-se-á possível interromper a espetacularização do escárnio e o ostracismo
moderno pautado na intolerância.