Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 01/04/2021
Na obra “Utopia”, do escritor inglês Thomas More, é retratada uma sociedade perfeita, na qual o corpo social padroniza-se pela ausência de conflitos e problemas. No entanto, o que se observa atualmente é o oposto do que o autor prega, haja vista a presença da cultura do cancelamento na sociedade contemporânea. Nesse contexto, pode-se observar a supressão do diálogo e os impactos decorrentes desse panorama como aspectos relevantes dessa problemática.
É importante pontuar, de início, o conceito de maiêutica, da filosofia socrática, o espaço para um diálogo saudável suscita perguntas que levam ao indivíduo descobrir suas próprias verdades e, muitas vezes, alterar de opinião sobre determinado assunto. Dessa forma, é imprescindível que haja comunicação eficaz entre o “cancelado” e os “canceladores”, no intuito dessas vítimas terem acesso à oportunidade de expor suas razões nesse cenário. Comprova-se isso, por exemplo, no caso da cultura de cancelamento do americano Emmanuel Cafferty que, em junho de 2020, perdeu seu emprego e teve sua imagem vinculada a grupos supremacistas brancos nas redes sociais, por um gesto que teria feito despretensiosamente ao alongar seus dedos da mão. Assim, verifica-se que a ausência do diálogo contribuiu para uma forma rasa de lidar com essa questão estruturalmente complexa, como também o silenciamento e o ataque em direção à vítima estadunidense, sem ter exposto justificativa para tal ato.
Nesse sentido, o discurso de ódio na internet é intensificado e a reputação do “cancelado” também é afetada. A partir disso, muitas vezes, o cancelamento é feito sem que ele possa argumentar e essas consequências podem atingir até o meio laboral do indivíduo, como o que aconteceu com a blogueira Gabriela Pugliesi, a qual promoveu uma aglomeração social durante a quarentena contra a COVID-19, como resultado, esteve “cancelada” nas redes sociais e perdeu alguns contratos de trabalho, superando 2 milhões de reais. No entanto, essa constante tentativa de validação do caráter das pessoas não surte o efeito devidamente, já que na internet, a dinâmica é volátil e há sempre o surgimento de uma nova personalidade para cancelar. Entretanto, as vítimas podem permanecer com efeitos danosos em suas vidas, podendo ser ameaças ao emprego e aos meios de subsistências atuais e no seu futuro.
Assim, medidas exequíveis são necessárias para conter o avanço desse imbróglio. Logo, o Poder Público, responsável por garantir a prática da cidadania nacional, juntamente à mídia, deve incentivar que as pessoas ponderem as suas atitudes de cancelamento e pratiquem o diálogo entre elas, por meio de propagandas nas televisões e, principalmente, nas redes sociais, a fim de que essa cultura não seja mais intensificada. Com isso, espera-se que todos os indivíduos vivam em um espaço cibernético livre de discursos de ódio e injustiças, mantendo uma sociabilização harmônica.