Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 21/04/2021

Em “O auto da barca do inferno”, Gil Vicente, o pai do teatro português, teceu uma crítica ao comportamento vicioso do século XVI. Fora da ficção, a esfera mundial do século XXI demonstra as mesmas conotações no que se refere à cultura do cancelamento na sociedade. Diante dessa perspectiva, observa-se a decorrência de um cenário desafiador, seja em virtude da má influência midiática, seja pela lenta mudança na mentalidade social da população moderna.

A princípio, é preciso atentar para a persuasão danosa das redes comunicativas presente na questão. Nesse contexto, conforme Pierre bourdieu, o que foi criado para ser instrumento de democracia não deve ser convertido em mecanismo de opressão. Nessa perspectiva, pode-se constatar que a mídia exalta o crescimento social dos indivíduos, mas, ao mesmo tempo tal exposição rebaixa-os sob qualquer atitude nociva e, até mesmo, atinge familiares isónomos e isentos no envolvimento de tal ato. Assim, nota-se práticas de exclusão no lugar de uma eficiência judiciária respeitável.

Outrossim, uma segunda dificuldade enfrentada no debate é a questão dos paradigmas nos pensamentos da sociedade contemporânea. Sob essa lógica, para Émile Durkheim, “O fato social é a maneira coletiva de pensar”. Dessa forma, é possível perceber que a prática de cancelar famosos ou marcas -principalmente em redes sociais de engajamento- é fortemente influenciada pelo pensamento coletivo, uma vez que, se as pessoas crescem inseridas em um contexto social de perseguição e extremismo, a tendência é adotar esse comportamento superficial, o que torna as relações sociais ainda mais instáveis e criticadoras.

Portanto, é evidente que tais entraves precisam ser solucionados. Logo, o Poder Legislativo, com o apoio da mídia globalizada, deve promover a criação de projetos de lei cibernéticos e atualizados com o contexto atual, que envolvem ações tanto preconceituosas e errôneas dos cancelados, quanto radicais de xingamentos e violências dos canceladores. Para tanto, por meio da divulgação de tais regulamentações nos meios comunicativos e da valorização de denúncias, contudo, dentro do direito digno de todo ser humano, a fim de que mais pessoas compreendam o alcance e as consequências do cancelamento e se tornem cidadãos mais atuantes na busca de resoluções com respeito. Assim, possivelmente, a crítica de Gil Vicente poderá ser controlada no mundo virtual e latente.