Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 21/04/2021

Na obra “Vigiar e Punir”, o francês Michel Foucault idealiza a expressão “punitivismo” que, para ele, ao se espelhar nos erros alheios, as pessoas julgam e tentam aplicar punições no ambiente virtual da atualidade, por meio da cultura do cancelamento. Dessa forma, praticam o individualismo da crítica, em que há a satisfação do ego do “cancelador” digital e a vingança, sem que o corpo social compreenda que o ideal seria reinserir e ressocializar o infrator. Sob essa ótica, ao empregar o cancelamento nas mídias sociais, há, automaticamente, o prejuízo moral de constrangimento, devido à liberdade dada no ambiente virtual que possibilita a construção de um indivíduo perfeito e moldado por um padrão comportamental que, quando não atendido, para o senso comum deve reprimir e “cancelar” o infrator.

Nesse sentido, ao interpretar o conceito “Violência Simbólica”, o sociólogo Pierre Bordieu expõe que instrumentos criados para exercer a democracia, como a internet com o intuito de comunicação e entretenimento, tornaram-se mecanismos dispersores de ódio. Assim, essa ferramentas, ao serem manipuladas pelos usuários das mídias sociais, são usadas para aplicar a cultura do cancelamento e, ainda, atuam na coação social ao constranger moralmente os indivíduos julgados. Nessa perspectiva, com a liberdade de expressão ascendente na contemporaneidade as pessoas inconvenientes falam e agem no meio virtual sem calcular o impacto moral sobre o próximo.

Outrossim, na música “Sampa”, o cantor brasileiro Caetano Veloso expõe que o que não é agradável aos olhos ou compatível à opinião da maioria do corpo social é “cancelado”, até mesmo sem uma justificativa ou redimissão. Dessa maneira, com a facilidade de acesso à internet muitas pessoas, ao se comportarem de forma contrária ao padrão criado, são canceladas das mídias e humilhadas incanssávelmente. Logo, o ideial seria que ao julgar, as pessoas que condenam deveriam auxiliar para um comportamento melhor e contribuir com a exclusão para aplicar sobre os infratores do padrão imposto virtualmente, não bloqueando a liberdade de expressão individual.

Portanto, cabe á União Internacional de Telecomunicações estabelecer projetos de maior segurança para os usuários das mídias sociais, por meio do aprimoramento dos sistemas digitais, para que diminua os índices das vítimas de múltiplos ataques imorais. Ademais, a Secretaria Especial de Comunicação Social, a qual orienta as ações de publicidade digital, deve promover engajamentos midiáticos que reforcem a ressocialização das pessoas canceladas. Como efeito social, ao propagar as consequências do constrangimento moral nas redes sociais, os canceladores se tornarão mais conscientes, abandonarão o individualismo da círitica e usarão a liberdade de expressão nas mídias para auxiliarem o próximo ao cometer erros publicamente.