Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 14/05/2021
Em anuição à Freud, aquilo a que chamamos “felicidade”, no sentido mais estrito, vem da satisfação repentina de necessidades altamente represadas. Sendo assim, o cancelamento por sua vez, integra a relação de satisfação repentina, com o prazer moral do julgamento e impondo critérios e regras sociais para com a sociedade. O debate popular acerca do cancelamento levanta a ideia de que todos estão sujeitos aos ataques canceladores caso estejam mínima ou maximamente contra lutas, atitudes, falas e que façam parte de seu conhecimento pessoal. Além disso, a politização extrema das redes sociais é uma das maiores contribuintes para o ato de cancelar. Na perspectiva atual, convém analisar os impactos da cultura do cancelamento, perante às questões que acercam o debate.
Em primeiro plano, o cancelamento surgiu como uma forma de romper com a estrutura de poder, com o intuito de repreender atitudes perante grupos oprimidos e forçar a ação política de marcas e figuras públicas. Porém, na sociedade moderna, esse movimento se tornou uma prática muito comum, resultando em um grande número de vítimas dessa cultura do cancelamento. A princípio, é perceptível que parte dos motivos que podem gerar a prática do cancelamento estão ligados ao uso de uma expressão de cunho preconceituoso, ou o silêncio diante de um ato de injustiça. Assim, o discurso de ódio se intensifica juntamente com a reputação, também afetada.
Em segundo plano, a internet corrobora a cultura do cancelamento, além de impedir que o atingido se justifique. Como por exemplo, os influenciadores digitais que em algum momento não respeitaram os protocolos da quarentena perante ao avanço da pandemia. Em anuição ao pensamento do filósofo Umberto Eco, “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”, dando a entender que qualquer atitude ofensiva liderada pelo ato de cancelar, pode ser válida. Em suma, as consequências de cancelar podem acarretar em problemas que vão muito além do mundo virtual.
Portanto, para que a cultura do cancelamento seja mitigada, cabe ao Estado - responsável pela garantia dos direitos individuais e coletivos para os indivíduos - estabelecer normas que inibam atitudes infratoras. Pela mesma razão, urge ao Poder Legislativo a implementação de uma lei que proíba e puna o cancelamento ofensivo nas redes sociais. Para isso, seria necessário o uso da própria internet para que usuários possam alertar e denunciar esse tipo de situação. Dessa forma, a interação harmoniosa e respeitosa farão parte de um futuro tecnológico e social promissor.