Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 24/05/2021
“Toda ação gera uma reação”. Essa análise da terceira lei do físico Isaac Newton pode ser relacionada à cultura do cancelamento como contradição à justiça social. Afinal, é através de atitudes que contribuem para a cultura do cancelamento, como o uso de instrumentos para demonstrar poder e o estabelecimento de novos conceitos sociais, que uma sociedade mais injusta é gerada.
Inicialmente, ao se refletir acerca da cultura do cancelamento como entrave para a justiça, vê-se que isso ocorre desde a antiguidade, uma vez que pensamentos contrários aos fixados pelas instituições de poder foram por muito tempo oprimidos e silenciados. Corrobora-se essa conjuntura a partir do julgamento do polímata Galileu Galilei o qual, após ser preso pela Santa Inquisição, precisou negar seus ideais a fim de continuar vivo. Além disso, nota-se que malefícios para o bem-estar social são gerados porque pessoas utilizam instrumentos, como poder político e visibilidade na mídia, para silenciar e cancelar indivíduos. Esse contexto pode ser melhor refletido a partir dos estudos de Foucault sobre o poder, os quais afirmam que os homens utilizam qualquer instrumento para demonstrar domínio sobre os outros, possivelmente prejudicando a vida social do cancelado.
Ademais, a cultura do cancelamento é também prejudicial a ordem social, pois essa gera uma limitação para que a pessoa julgada evolua seu pensamento, uma vez que não há o incentivo à reflexão acerca do tema. Tal contexto vai de encontro ao ideal socrático da Maiêutica, no qual deveria haver um processo de pensamento crítico quando se objetiva chegar a uma verdade. Outro fator relacionado a essa cultura, é que os cidadãos se habituam com a atitude de julgar as ações de outros indivíduos, sem pensar nas consequências disso na realidade do julgado. Elucida-se tal raciocínio por meio do princípio de Banalização do Mal, da filósofa Hannah Arendt, o qual afirma que as pessoas fazem o mal sem perceber que o praticam, assim, cancelam indivíduos sem refletir sobre as consequências.
Portanto, é cognoscível que a cultura do cancelamento é prejudicial à justiça social e precisa ser minimizada. Destarte, faz-se necessário que a escola, pilar formador da criticidade humana, atue em conjunto com o Ministério da Educação promovendo uma nova grade curricular obrigatória que englobe desde a educação infantil o acesso a aulas de cidadania e tolerância a fim de criar um corpo discente mais responsável e preocupado com o próximo. Ademais, é fulcral que o Ministério da Cidadania, em conjunto com veículos midiáticos, divulgue, através de campanhas, os malefícios causados na vida dos cancelados e a necessidade do respeito às opiniões divergentes. Dessa forma, é através de atitudes que visem a harmonia social que a lógica de Newton terá reflexos positivos na sociedade.