Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 29/05/2021
No desfecho da novela Avenida Brasil, a personagem Carminha, sofreu com o impacto do julgamento social de seus atos, sendo, até mesmo, obrigada a se refugiar em um lixão para se proteger da reação violenta da sociedade. No entanto, fora da ficção, esse comportamento não se limita aos personagens da obra, de modo que esse julgamento vem se tornando um padrão de conduta, identificado a partir da cultura do cancelamento na sociedade. Nesse sentido, observa-se um delicado problema, que tem como causas o distanciamento interpessoal e a autorização da violência.
O conceito de modernidade líquida introduzida pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman expressa perfeitamente esse distanciamento entre os indivíduos, vivenciado diariamente entre aqueles que usufruem dos meios de comunicação e estão aptos a receber qualquer tipo de informação sobre qualquer pessoa em tempo real, ficando fácil, assim, ceder aos diversos tipos de ondas de cancelamento alheio, seja de celebridades ou pessoas comuns quando é cometido algum deslize, seja ele grave ou não. Tal distanciamento objetifica as relações entre os sujeitos, onde o momento do ódio pode acabar por transformar a vida daquele que é atacado.
Em segundo plano, é notório também o quanto isso é aceito na contemporaneidade. As pessoas estão em busca de alguém para descontar seu ódio e indignação, alguém aleatório da internet para cancelar e sentirem-se bem consigo mesmas, daí vem a autorização da violência. Essas ações de enfurecimento e raiva com o próximo, podem ser atribuídas pela Banalização do Mal, na qual a filósofa alemã Hannah Arendt usa o termo para explicar como uma sociedade está coagida a seguir uma ideologia fanática do mal e não perceber o que está fazendo.
Infere-se, portanto, a necessidade do debate acerca da cultura do cancelamento na atualidade. Sendo assim, cabe à população adquirir uma mentalidade de que todos estão sucetíveis a erros e possíveis cancelamentos, por meio de palestras nas comunidades e nas escolas, podendo usar do meio digital também para a conscientização de todos os indivíduos. Em adição, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações deve atuar por meio do Conselho Nacional de Autorregulação Pública (CONAR) com finalidade de fiscalizar e restringir o acesso a publicações que contenham comentários de ódio nas redes sociais, para que mais pessoas não deixem-se levar por essa crueldade cíclica. Assim, a partir dessas medidas, evita-se o fim concedido à Carminha, àqueles que erram e também rompe-se com a ideia de Arendt, que nem sempre o mal é banalizado.