Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 29/05/2021
Com o passar do tempo, pautas de grupos minoritários ganharam visibilidade até o ponto em que, hoje, são acessíveis para toda a sociedade, o que significa que começaram a se politizar melhor sobre o assunto. Enquanto isso é um grande progresso, uma consequência foi o surgimento da cultura do cancelamento, em que as pessoas são monitoradas de forma tão extrema que apenas uma ação pode condenar a vida de alguém. Essencialmente, esta cultura tem como base um senso de perfeição irreal e o desejo dos “canceladores” de sentirem que estão certos.
Primeiramente, errar é inevitável. A maioria das pessoas já reproduziu comportamentos preconceituosos, como uma fala racista ou comentário homofóbico. Isso é algo enraizado na nossa sociedade, resultado de uma cultura criada e praticada há eras, ou seja, está fora do nosso controle. É importante entender isso e evitar repetir ações deste tipo quando possível. Entretanto, a cultura do cancelamento exige um nível absurdo de perfeição. Os “canceladores” esperam que todos sejam desconstruídos e, quando alguém reproduz uma fala errada, as pessoas optam por ver aquela ação como um ato intencional por parte de quem a falou invés de observá-la como produto de séculos de uma cultura intolerante.
E então, há o caso das pessoas que participam desta cultura para se sentirem certas. Segundo uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 61,5% das pessoas com acesso à “internet” são brancas, enquanto 39,5% são negras. A partir destes dados, é possível concluir que mais pessoas privilegiadas têm acesso à “internet” e, por isso, procuram se tornar cientes sobre pautas de grupos marginalizados. O que acontece é que muitas destas pessoas querem apoiar estas causas, mas não possuem uma forma de fazer isso do local onde estão. Neste contexto, o indivíduo acredita que, ao atacar alguém por um deslize, ela estará ajudando a causa. É uma forma para estas pessoas se validarem como apoiadores, sentirem que estão do lado certo da história. No entanto, isso é mais prejudicial do que benéfico. Por exemplo, grupos ativamente racistas usam isso para justificar seu preconceito e outras pessoas que não estão envolvidas podem acabar acreditando nestes grupo; dessa forma, uma pauta que lutava contra o racismo acaba sendo visto como algo negativo.
Em conclusão, a cultura do cancelamento é um obstáculo para grupos que querem ter suas vozes ouvidas. É necessário um momento de reflexão por parte daqueles que participam dessa cultura para que se perguntem se o que estão fazendo realmente está ajudando e, a partir daí, estudar sobre o que as pautas que querem defender realmente dizem e, assim, se esforçar para dialogar e educar aqueles que ainda reproduzem discursos preconceituosos.