Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 29/05/2021
Assim como outras obras que foram escritas do período do Humanismo, “O Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente nos traz uma nova perspectiva sobre as ações do homem racional. Ao longo do texto percebemos que as atitudes de cada personagem são julgadas com base nos valores morais e religiosos, fazendo uma alegoria ao céu e inferno. Essa lógica punitivista trazida por Gil Vicente em 1517, pode também ser representada nas redes sociais do mundo contemporâneo, isto é, o termo “cancelamento” é hoje utilizado para nomear a prática virtual de boicotes a personalidades que cometeram alguma violência ou disseram algo considerado moralmente errado. No entanto, essa cultura gera debates e discussões relacionadas ao real objetivo desse movimento: fazer um denúncia justa ou apontar as falhas alheias?
Segundo a pesquisadora Anna Vitória Rocha, mestranda em Ciências da Comunicação na USP, o fenômeno começou a ganhar mais força em 2017 quando houve o movimento #MeToo, que denunciava assédio sexual e o abuso de homens conhecidos contra mulheres; mesmo assim, ela afirma que uma série de fatores anteriores permitiram criar uma atmosfera favorável nos meios virtuais: por volta de 2013, os movimentos negros, feministas, LGBTQ+ começaram a crescer. Portanto, o cancelamento surge com a finalidade de romper uma estrutura de poder para fazer uma denúncia justa que de outra forma não seria ouvida, explica Anna Vitória.
Por outro lado, Anna Vitória afirma que a cultura do cancelamento foi perdendo o senso de proporção conforme o tempo. As pessoas começam a sentir a necessidade de apontar as falhas alheias para se mostrarem moralmente superiores, trazendo à tona a ideia de quem não cancela também corre o risco de ser cancelado. Esses julgamentos e críticas ocorrem de maneira extremamente rápida e viral, por isso aqueles que um dia foram cancelados hoje não são nem lembrados.
De acordo com as ideias apresentadas, percemos que o inicial objetivo da criação do movimento era coerente, no entanto, as coisas sempre se transformam e acabam sendo interpretadas erroneamente. O cancelamento trouxe a ideia de que não existe espaço para o ambíguo e nem para o contraditório, por isso as pessoas passam dos limites das redes sociais, algo que deve ser mudado urgentemente.