Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 08/06/2021
A cultura do cancelamento surgiu como um movimento que visa reconhecer a gravidade de problemas e denunciar atitudes negativas de pessoas ou empresas, além dar voz a grupos historicamente oprimidos. No entanto, na sociedade contemporânea, diversos indivíduos, famosos ou não, são vítimas do notório cancelamento. Dessa maneira, convém analisar as suas causas e consequências para o corpo social.
Em primeiro lugar, é necessário considerar que o cancelamento é promovido, em sua maioria, por adolescentes e jovens adultos, e as suas motivações são, usualmente, posturas preconceituosas ou negligentes que não são mais admitidas pelo coletivo. Assim, o sujeito é cancelado, transformado em mero objeto e descartado por não ter mais serventia à sociedade. Esse fenômeno que se observa atualmente nas redes sociais, coincide com o conceito trabalhado por Michel Foucault, em sua obra “Vigiar e Punir”, que caracteriza o mundo contemporâneo. Isso se dá devido à constante vigilância da conduta de figuras públicas, além da exigência de um padrão de comportamento mediante amedrontamento e punição, características do novo costume.
Por consequência, o movimento da cultura do cancelamento tornou-se uma ferramenta de exclusão social, naturalmente temida pelas pessoas. Esse linchamento nos meios digitais, além de afetar a reputação dos indivíduos, chega a impactar a saúde mental e a fonte de renda dos alvos, como é o caso da blogueira Gabriela Pugliesi, que após dar uma festa em meio à pandemia de COVID-19, perdeu contratos com empresas. Logo, se faz evidente que o cancelamento muitas vezes alcança dimensões desproporcionais à sua motivação, de forma a causar um grande estrago. Muitas vezes, ainda, o movimento não leva a grandes discussões acerca dos comportamentos dos alvos, visto que esses são simplesmente cancelados. Logo, o movimento é uma forma rasa de lidar com questões complexas, além de estimular a violência como recurso para a responsabilização.
Portanto, com a intenção de conter a cultura do cancelamento e desestimular o discurso de ódio e a agressão, é papel do Ministério da Educação, em parceria com escolas e instituições de ensino, oferecer debates acerca do tema, através de palestras e aulas temáticas. Deve-se, dessa forma, conscientizar a população jovem dos malefícios do cancelamento, além de como, muitas vezes, o diálogo é um caminho mais interessante, visto que possibilita a educação do alvo pela discussão de seus erros. Assim, a responsabilização dos indivíduos de forma humana e responsável, sem causar outras injustiças e estimulando a educação sobre temas pertinentes será incentivada.