Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 31/05/2021

Críticas construtivas ou destrutivas?

Segundo o dicionário da língua portuguesa, cancelar é verbo transitivo para tornar algo sem efeito, anular, eliminar, suspender, suprimir, como: cancelar o passaporte. Diante disso, no momento atual, a chamada cultura do cancelamento, que ganhou força nos últimos dois anos é uma forma moderna de banimento em que uma pessoa ou um grupo é expulso de uma posição de influência ou fama devido a atitudes consideradas questionáveis, seja online, no mundo real ou em ambos. À vista disso a cultura do cancelamento inibe qualquer tipo de assunto e se torna uma forma de opressão coletiva, intensificando o discurso de ódio na internet e prejudicando a capacidade de argumentar.

Primeiramente, a cultura do cancelamento, antes utilizada para levantar debates e discussões importantes, além de responsabilizar os indivíduos por suas ações, no contexto atual é utilizada prioritariamente para eliminar os argumentos de outras pessoas, acerca de assuntos muitas vezes superficiais e sem real importância. Em virtude disso, o cancelamento, antes usado de fato para fazer com que o individuo se responsabilizasse e se redimisse, hoje é usado sem reais restrições, diminuindo a participação de pessoas em diálogos e debates, e ao invés de utilizar críticas construtivas, como inicialmente, é utilizada como uma forma de se fazer criticas destrutivas.

Outrossim, ao transformar os indivíduos em uma espécie de objetos, facilmente descartados e sem possibilidade de uma segunda chance, a saúde de mental tanto dos cancelados quanto dos canceladores é severamente afetada, visto que essa forma de destruição do argumento do outro, tem como consequência a destruição do outro em si. Segundo Rosana Pinheiro-Machado, antropóloga e cientista social “O cancelamento é fechar o debate. Essa cultura é um comportamento de manada.” E, diante disso, esse comportamento de manada, que inclui um principal grupo opressor, produz medo e hesitação de se expressar e dar a própria opinião, já que esse comportamento de expulsão aumenta não só o bullying, mas também essa nova forma de exclusão social, o cancelamento.

Por conseguinte, deveria haver uma diminuição da cultura do cancelamento a partir da reflexão a respeito dessa prática nas escolas e na própria casa. Assim, as escolas, junto do ministério da educação, deveriam instituir o costume de diálogos na resolução de conflitos, e implementar aulas em que se explicam não só os problemas e as consequências dessas praticas de cancelamento real e virtual, mas também aulas em que se criem debatas e discussões respeitosas acerca de assuntos de suma importância no contexto atual, para que assim haja uma conscientização acerca dessa comportamento a partir da educação, que é agora, mais do que nunca, essencial.