Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 06/06/2021

No ano de 2019, o Dicionário Macquarie, após selecionar as palavras que mais caracterizam o comportamento dos seres humanos, elegeu a expressão “cultura do cancelamento” como o termo do ano. Sob esse aspecto, é possível perceber que o cancelamento é uma conduta contemporânea e decorrente do processo de massificação da internet. Assim, o movimento surge no ambiente cibernético como uma ferramenta de denúncia de discursos de ódio, humilhando e excluindo pessoas com atitudes consideradas intoleráveis na atualidade. Nesse sentido, é nítido que essa cultura valoriza pautas sociais importantes, mas também transforma as pessoas em objetos facilmente descartáveis.

Em primeiro lugar, faz-se necessário destacar que, com os avanços no campo social, observa-se na contemporaneidade um processo de desconstrução de práticas e costumes anteriormente normalizados na sociedade. Em decorrência disso, comportamentos discriminatórios, como o machismo, racismo e a homofobia, são passíveis de punição e não mais aceitos, gerando a manifestação das pessoas contra essas atitudes. Segundo o filósofo Karl Popper, “a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da mesma, exigindo, em prol da sua defesa, a necessidade de não tolerar a intolerância”. Dessa forma, a cultura do cancelamento é utilizada como uma maneira de se fazer justiça social, visto que não tolera posicionamentos preconceituosos.

Entretanto, o cancelamento se tornou uma forma de opressão, diminuindo o diálogo entre os indivíduos, intensificando a violência e os discurso de ódio no meio digital. Desse modo, o termo “cancelar” deixa de ser utilizado para descrever a suspensão de um serviço ou dispositivo, e passa a caracterizar a redução do indivíduo à um objeto. De acordo com o sociólogo Zygmunt Bauman, os laços humanos se tornam cada vez mais frágeis na modernidade, sendo caracterizados como líquidos. Logo, percebe-se que esse movimento é decorrente de um modelo de relações entre cliente e mercadoria, devido a liquefação das relações humanas que transforma os indivíduos em produtos facilmente descartáveis mediante a uma ação ou posicionamento.

Com o intuito de amenizar essa problemática, é de extrema necessidade que o Ministério da Educação e Cultura, por meio da oferta de seminários e debates sobre CNV (Comunicação não Violenta) nas escolas, eduque as crianças e jovens sobre os impactos de movimentos coletivos de cancelamento na sociedade e sobre a importância de se resolver conflitos a partir do diálogo. Com isso, as instituições de ensino que contribuem para o desenvolvimento dos indivíduos, formarão cidadãos mais conscientes e as pautas sociais levantadas valorizarão a não-violência.