Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 11/06/2021
O termo “cultura do cancelamento” tem sido âmplamente utilizado nos últimos anos para descrever situações de ataques e boicotes à pessoas online. Originalmente, ele surgiu como um meio de dar visibilidade a pautas importantes que, frequentemente, não costumam alcançar a devida notoriedade dentro ou fora da internet. Além disso, o apontamento do erro poderia servir como ensinamento, tanto para o acusado quanto para outras pessoas leigas do assunto em questão. Entretanto, o índice desproporcional de violência contra os indivíduos “cancelados” levanta uma série de debates acerca da sociedade atual e de como as relações humanas tem se estabelecido dentro e fora das redes sociais.
A rapidez com que informações, verdadeiras ou não, circulam nas redes faz com que todo o processo do cancelamento seja bastane acelerado. Os usuários das plataformas digitais são expostos a um fluxo intenso e constante de informações, as quais, muitas vezes, não são dispersadas com clareza e profundidade. Consequentemente, é comum que, em questão de horas, uma grande massa de pessoas possua uma opinião formada acerca de um assunto, partindo somente de uma mesma publicação. Os perigos que isso representa são muitos e atingem vários âmbitos sociais, incluindo o do cancelamento. Interpretações errôneas e acusações injustas são a raíz de muitos ataques gratuitos que vêm sendo proferidos contra várias pessoas, antes mesmo que elas possam ter a chance de defesa.
O caráter punitivo sob o educativo que permeia a cultura do cancelamento, o torna extremamente violento e ineficaz. Ainda que o indivíduo em questão tenha, de fato, cometido erros gravíssimos e odiosos, é dado pouco ou nenhum espaço para que o mesmo possua algum tipo de aprendizagem e retratação. Sendo assim, a experiência genuína de arrependimento e redenção após o cancelamento é quase nula, já que o acusado dificilmente reconhece o seu erro em meio a tantas mensagens de ódio. Simultaneamente, a rapidez com que cada caso se manifesta e é substituído por um novo banaliza a situação de injustiça apontada, que torna a acontecer continuamente.
O combate à violência com mais violência só leva a um ciclo interminável de ódio partindo de todos os lados. Para que, de fato, as interações “on” e “offline” proporcionem algum tipo de troca positiva, é necessário que se tome consciência de como falas e ações individuais possuem um impacto no coletivo, mesmo na internet. Para isso, é imprescindível que hajam aulas de comunicação não-violenta nas escolas, voltadas também para as redes socias, a partir dos níveis básicos de ensino. Desse modo, os jovens teriam uma formação que os instruísse e preparasse para se relacionar com outras pessoas, cada qual com a sua pluralidade e recorte social. Assim, seria feito um uso mais responsável, saudável e produtivo da possibilidade de conexão interpessoal que a internet proporciona.