Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 12/06/2021
Como disse Carlos Heitor Cony, jornalista e escritor brasileiro, “A internet é poluidora, não no sentido ecológico, mas sim espiritual”. A internet é um meio pelo qual o ódio se dissemina com extrema rapidez e facilidade. Um exemplo disso é a cultura do cancelamento. Apesar de ter começado há alguns anos como uma forma de chamar a atenção para causas como justiça social e preservação ambiental, o cancelamento atual apresenta diversas problemáticas. A banalização que o cancelamento sofreu, a ameaça ao emprego e os meios de subsistência atuais e futuros do “cancelado” e sua ineficácia são exemplos de problemas do movimento conhecido como “cultura do cancelamento”.
Primeiramente, é notório que, atualmente, o cancelamento ocorre de maneira descontrolada e, de certa forma, irracional. Qualquer um pode ser cancelado, não é preciso mais ser proeminente, famoso ou político para ser cancelado. Ademais, o descontrole e a irracionalidade se encontram no fato de não ser mais necessário a certeza de que a pessoa sendo cancelada fez algo considerado inaceitável. Em 2017, Gustavito, cantor de MPB de 33 anos, foi acusado de cometer estupro em um post de Facebook e, antes de seu julgamento, foi cancelado na internet, o que levou seus patrocinadores a pararem de apoiá-lo e ao cancelamento de seus shows. Em 2019, ele obteve uma vitória por calúnia contra sua acusadora, porém, o tempo que permaneceu cancelado já havia causado danos irreversíveis a carreira e vida do cantor. Desse modo, fica evidente que o cancelamento foi banalizado, tendo em vista que os usuários da internet passaram a cancelar sem provas e sem pensar nas consequências de tal ato. Também se faz notável que o linchamento virtual pode levar a perda de contratos e patrocinadores importantes, ameaçando os meios de subsistência atuais e futuros do “cancelado”.
Outrossim, tendo em vista que o cancelamento se baseia na humilhação, exposição e exclusão do sujeito que, supostamente, cometeu o erro, não há forma do “cancelado” se corrigir. Sem o diálogo é impossível educar e não impedirá que o erro se repita. Dessa forma, o cancelamento se mostra ineficaz na reeducação dos indivíduos.
Diante do exposto, se faz necessário a revisão dessa prática. Cabe às escolas, uma das responsáveis pela educação dos cidadãos, junto à mídia, incentivar as pessoas a reconsiderarem as suas atitudes de cancelamento e a exercerem o diálogo entre si, por meio da implementação de cursos de Comunicação Não-Violenta, propagandas nas televisões, rádios e, principalmente, nas redes sociais, com o intuito de amenizar a atual cultura do cancelamento baseada no ódio, tornar a internet menos tóxica para a população e restaurar o objetivo inicial desse movimento, ou seja, para que mais brasileiros possam corrigir seus erros e aprender com eles.