Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 15/06/2021
Nunca perca fé na humanidade, pois ela é como um oceano. Só porque existem algumas gotas de água suja nele, não quer que ele esteja sujo por completo, disse Mahatma Gandhi. Associando esse pensamento a um contexto de relações sociais, a cultura do cancelamento funciona como gotas de sujeira poluidoras. Nesse prisma, fatores como o excesso de informações e um pensamento banal impedem a limpeza do grande oceano chamado sociedade.
Em primeira análise, o alto grau de circulação de conhecimentos em mídias virtuais, oriundo com o advento da ‘internet’, mostra-se como um dos desafios para a resolução do problema. Conforme Arthur Schopenhauer, os limites do campo de visão dos indivíduos determinam sua compreensão acerca do mundo. Nesse sentido, a fala do filósofo justifica a causa problemática: o aumento de informações e dados compartilhados por usuários, muitas vezes, inverídicos, em redes sociais, proporciona a construção de campos de visão julgadores de qualquer atividade que apreça “fora da curva”, originando o cancelamento. Nesse aspecto, a consequência será uma sociedade que não busca mediar o excessivo uso tecnológico, mas disseminar pontos de vista que resultam em falhos convívios sociais.
Em segunda análise, um raciocínio trivial sobre os perigos do cancelamento apresenta-se como outro fator dificultador do bem-estar. Segundo Annah Arendt, na teoria da “Banalidade do Mal”, o ato preconceituoso passa a ser feito inconscientemente quando os seres normalizam tal situação, comparando com a cultura da omissão de pessoas que é presente cotidianamente não só de forma virtual - redes sociais -, mas também em escolas e ambientes de trabalho. Nesse âmbito, o preconceito e a criatividade sempre existiram na sociedade brasileira, mas, no século XXI, esses atos estão sendo usados demasiadamente, como reguladores de atitudes, ou seja, é normalizado que se uma pessoa não concorda com outra, automaticamente, elas vão confrontar-se, o que acarreta discriminação. Por isso, combater essa ação banal de modo a mediar a criticidade excessiva, promoverá a qualidade de vida.
Portanto, medidas são necessárias para diminuir o cancelamento social. Por conseguinte, cabe ao Ministério da Educação promover palestras, ministradas por psicólogo, em instituições de ensino parceiras, com o “slogan”: “Cancelar até que ponto? ”. Esse projeto pode ser feito mediante um diálogo - aberto e gratuito a toda população - entre o público presente e o especialista sobre os perigos da cultura do cancelamento, com dados, infográficos e exemplos, de modo que os cidadãos reflitam sobre seus atos, resultando na construção da cultura de empatia com um coletivo informatizado e ativista do bem-estar civilizatório. Dessa forma, a limpeza do grande oceano, a fé na humanidade e um campo de visão amplo e menos banal tornar-se-ão destinos certos.